sábado, 20 de fevereiro de 2016

Para esclarecer: apropriação cultural

Foto: Ashley Hawthorne

Antes de tudo, este texto foi escrito por mim (Ashley) e Bia Lima para a apresentação de um trabalho acadêmico do curso de Jornalismo. Decidi publicar, pois é um assunto pouco discutido e algumas pessoas ainda têm a visão errada do que realmente é apropriação cultural. 

Apropriação cultural é quando pessoas de uma cultura adotam costumes e acessórios de outra – geralmente oprimida – de forma banalizada. Hoje em dia é muito comum ter acessórios de cultura africana ou indiana sendo vistos nas passarelas da moda, isso é considerado apropriação pelo fato de estes objetos estarem sendo usados de forma desvalorizada e fora do seu contexto original. É importante perceber que esses itens vão muito além de ser apenas uma vestimenta ou uma fantasia, faz parte da essência de um povo e quando se trata de um povo silenciado pela sociedade, essa ofensa se torna gritante. 

Essas práticas são consideradas ofensivas, principalmente, quando feitas por um indivíduo privilegiado na sociedade. É comum ver negros usando elementos de sua cultura e geralmente estes são marginalizados, vistos como mendigos, vagabundos e sujos, mas quando se vê um branco usando, é considerado bonito, despojado e estiloso. Torna-se ofensivo quando o seu discurso é silenciado e um branco aplaudido por falar exatamente aquilo que é dito por negros há décadas.

Fala-se muito em dívida histórica quando se trata de discussões inter-raciais. Estuda-se a história do povo negro durante o Ensino Fundamental e Médio, mas parece serem ignoradas as consequências da escravidão. O racismo é um problema herdado de séculos passados e parece que mesmo com todo esclarecimento sobre esse assunto, as pessoas, principalmente nas mídias sociais, estão deixando esse preconceito cada vez mais visível e escancarado, quem é racista não tem mais medo ou vergonha de mostrar isso em público. 

A classe socialmente dominante usava como justificativa para escravidão ideias religiosas e racistas que pregavam superioridade da raça. As diferenças raciais funcionavam como empecilhos sociais. 

É importante frisar que o racismo está tão interno em nossa sociedade que os negros reproduzem esse discurso de superioridade dos brancos. Esse discurso pode ser explícito quando um negro diz, por exemplo, que “negro tem cabelo ruim” ou esse discurso pode ser também de forma menos visível quando seus cabelos são modificados para que possam parecer mais lisos e a desculpa para que façam isso é simples: é questão de gosto.

Diante de todos esses fatos, é visível a existência da dívida histórica para com os negros, pois mesmo após muitos anos eles ainda não tiveram as mesmas oportunidades que homens e mulheres brancos. O discurso racista ainda persiste, por isso é tão importante discutir sobre apropriação de elementos negros, sejam eles estéticos, musicais ou religiosos. Quando esses elementos são embranquecidos e utilizados por um povo socialmente e historicamente dominante, eles perdem todo o sentido de resistência, coragem e dor. 

Por muito tempo os negros modificaram seus cabelos. Alisaram, puxaram, aplicaram químicas e outros produtos para fugir da dificuldade que é ser negro e se adaptar à sociedade cada vez mais fechada para esse povo. Em um mundo onde pessoas brancas são consideradas mais bonitas, mais inteligentes, mais limpas, sofisticadas e melhores; ser negro e se assumir é ter coragem.

Aos poucos se tem visto cada vez mais mulheres e homens – sobretudo mulheres – assumindo seus cabelos, não só por estética, mas pela luta. Junto a isso, muitos acessórios de origem africana estão sendo vistos pelas pessoas como objetos pertencentes à moda, como por exemplo, o turbante. É então que entra a questão da apropriação cultural.

Mulheres brancas e de cabelos lisos usando turbante, um elemento negro que grita luta, apenas por tendência e estética acaba se tornando ofensivo para algumas pessoas que fazem parte do movimento negro e tanto lutaram por visibilidade. Outro elemento da cultura africana que é constantemente apropriado pelas pessoas são os dreadlocks. O dreadlock é uma forma de usar os cabelos que ficou conhecida por causa do movimento rastafari. Os dreads têm o seu conceito totalmente ideológico e religioso por trás, entretanto indivíduos que não seguem o movimento parecem vê-los de uma forma meramente estética e midiática, pois muitos usam para parecerem estilosos e se sentirem diferentes. 

Muitos se perguntam até que ponto o uso de um objeto vindo de outra cultura não se torna apropriação, entretanto essa linha é tênue e quase inexistente. Mesmo que o indivíduo utilize esses objetos com certa consciência de que aquilo vem de outra cultura e ainda entender o valor que aquela figura tem para a construção de tal, não há como definir com exatidão o que é ou não apropriação, mas ela começa quando o protagonista daquela cultura se sente ofendido. Deve-se ter em mente que o uso fashion daqueles objetos é também apropriação e, dependendo do seu uso, pode ser uma ofensa cruel, não importa o quão esclarecido seja aquele indivíduo. Há séculos é imposto um padrão de vida eurocêntrico na sociedade, por isso quando esses símbolos são utilizados, geralmente são “embranquecidos”, altamente comercializados e excluídos de todos os seus valores históricos.

Estes são reflexos de um mundo globalizado, onde as culturas se relacionam e se misturam entre si. Porém, assim, o preconceito se torna cada vez mais escancarado, as pessoas não têm mais medo de serem racistas em público e não se importam em usar, de forma banal, elementos de um povo invisibilizado e ainda sofrido. Pois é tendência, está na moda, se vê nas passarelas e as celebridades estão usando. Não se dá os devidos créditos àquela cultura e não reconhecem que essas figuras foram – e ainda são – importantes na construção histórica de um povo.

Outras publicações interessantes sobre o assunto: 

O que é apropriação cultural? - Capitolina
Opinião: Vamos falar sobre apropriação cultural?
Apropriação cultural | Ovelha
Tendência ou apropriação cultural? | Frida Diria
Precisamos falar sobre: apropriação cultural / Nega Vintage

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Sobre o blog


Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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