segunda-feira, 7 de março de 2016

A Cultura Participativa e a Inteligência Coletiva nos weblogs



UM NOVO OLHAR SOBRE A BLOGOSFERA:
A Inteligência Coletiva e a Cultura Participativa Nos Weblogs

Camila de Jesus¹
Centro Universitário Jorge Amado, Salvador, BA

Resumo

O presente artigo discute a relação dos weblogs com a inteligência coletiva (Lévy, 2003), com a cultura participativa (Jenkins, 2008) e a forma como a ferramenta vem transformando os meios cibernéticos, dissolvendo a relação entre produtor e consumidor de conteúdos na web. Através da pesquisa bibliográfica, discutir-se-á a importância dos blogs para o desenvolvimento da coletividade na web. Os weblogs, além de atuarem como elemento de discurso (Recuero, 2004), também permite a remediação (Bolter & Cruisin, 1999) e contribuem para o crescimento do jornalismo online.  

Palavras-chave

Weblogs; cultura participativa; inteligência coletiva; jornalismo.


Introdução

Os weblogs vêm ganhando bastante destaque nos tempos atuais, principalmente, pelo seu potencial em questões de socialização na web (Recuero, 2004). A forma mais popular de utilização da ferramenta é como diário virtual, onde o usuário utiliza a rede como um espaço para compartilhar suas emoções e experiências pessoais. Além de serem utilizados para esses fins, os blogs são capazes de atuar em diversas categorias e gêneros. 

Segundo Blood (2002), a ideia de websites que são atualizados com frequência e aparecem em ordem cronológica inversa é uma ideia antiga. Em 1999 já começaram a aparecer os primeiros blogs e sua popularização se deve ao fato de dispensarem conhecimentos técnicos como HTML, XML, etc. e possuírem um processo de construção simples, podendo ser personalizados de modo que fiquem do jeito que o usuário deseja (Recuero, 2004). 

A blogosfera é utilizada, principalmente, para discutir assuntos sobre um determinado tema. A ferramenta é muito utilizada por grupos de fãs que são denominados fandoms. Em sua publicação, “Fandom: cultura participativa em busca de um ídolo” para a revista Anagrama, Camila Monteiro afirma que há uma remediação (Bolter & Gruisin, 1999) dentro dos fandoms através de fanfics (histórias fictícias), fanzines (revistas criadas por fãs) e fanarts (desenhos), onde os fãs fazem suas próprias versões de histórias favoritas. Essa é apenas uma pequena amostra de como a cultura participativa (Jenkins, 2008) e a inteligência coletiva (Lévy, 1998) vêm crescendo dentro da plataforma dos weblogs. 

O blog em si já age como cultura participativa, mas isso ocorre também através dos webrings (Recuero, 2003), onde o interdiscurso acontece através de relações entre os blogueiros em forma de referências ou troca de links e comentários. Os blogs agem como elemento de discurso (Recuero, 2004) através da socialização a partir de comentários, permitindo uma troca de conhecimentos entre os leitores do blog e o próprio autor. Além de fortalecer ou criticar tal discurso, gerando debates, essa troca de comentários fortalece a presença da inteligência coletiva na blogosfera. 

Cada vez mais sendo utilizados, os weblogs não vieram apenas como um elemento temporário, a ferramenta é relativamente nova, mas já possui força inquestionável na cibercultura. Numa era onde as mídias colidem, os weblogs contribuem para a convergência (Jenkins, 2008), dissolvendo a relação entre produtor e consumidor de conteúdo, tornando-os um só e assim fazendo da web um local democrático, onde todos podem produzir e todos podem consumir. 

O objetivo deste artigo é discutir como a cultura participativa e a inteligência coletiva se relacionam na web em forma de blogs, e como a ferramenta está reconfigurando a forma de produzir conteúdo.  Através da pesquisa bibliográfica, busca-se uma visão geral dos weblogs e também entender as relações construídas na web através da ferramenta.

Surgimento e Ascensão

Por volta de 1997, John Barger resolveu criar um sistema onde as pessoas poderiam reunir as coisas que achassem de interessante na web e esse sistema foi chamado de “weblog”. Na época as pessoas pronunciavam a palavra como bem entendiam, foi então que Peter Merholz pronunciou o termo como se fosse duas palavras, algo como “wee-blog”. E posteriormente esse termo foi encurtado para “blog” (NOVAES, 2008). 

Os weblogs ganharam notoriedade em 1999 com o surgimento do Blogger, uma das primeiras ferramentas criadas para a publicação de blogs. A plataforma foi criada pela Pyra Labs e a popularização se deve ao fato de o mecanismo dispensar conhecimentos técnicos na área de informática. Até pessoas sem o mínimo conhecimento em HTML poderiam ter um blog e personalizá-lo. Em 2003 o Blogger foi comprado pela Google e, a partir de então, muitas funções anteriormente pagas estavam disponíveis de forma gratuita. 

A blogosfera, então, foi ainda mais popularizada com a criação do Blogger. Os usuários podiam personalizar o site da forma que preferiam e as postagens, que eram apenas links que direcionavam o usuário a outro site, passaram a ser incorporadas ao próprio site, com uma página própria. Os weblogs viraram um fenômeno da internet, todos queriam divulgar seus blogs e conhecer os de outras pessoas. Os usuários interagiam por meio dos comentários, que até hoje geram discussões gigantescas, podendo durar até meses; e muitas empresas passaram a utilizar a plataforma como fonte de renda. 

De acordo com Rebecca Blood (2002), podem ser considerados blogs, sites cujo conteúdo (texto, imagem, vídeo, áudio) esteja disponível em ordem cronológica inversa e atualizado de forma frequentemente. Em Webrings: As Redes de Sociabilidade e os Weblogs, Raquel Recuero diz: “Os blogs são herdeiros das páginas pessoais, com mais dinamismo e mutabilidade”. Esse dinamismo está na liberdade que o blogueiro tem de escrever sobre o assunto que lhe agrada, que lhe chama atenção. O dinamismo está também na liberdade que o leitor tem de, por meio dos comentários, elogiar, criticar e debater sobre o assunto tratado naquela postagem. É onde a inteligência coletiva (Lévy, 1997) se apresenta com mais força. 

A Cultura Participativa e a Inteligência Coletiva nos Weblogs

Um dos gêneros mais populares de blogs é o jornalístico. Os blogs jornalísticos são, obviamente, utilizados para a publicação de notícias e informações sobre a atualidade, estes são também os principais exemplos de cultura participativa (Jenkins, 2008) na web. 
Sobre cultura participativa, Jenkins (2008, p. 30) diz: 

Em vez de falar sobre produtores e consumidores de mídia como ocupantes de papéis separados, podemos agora considerá-los como participantes agindo de acordo com um novo conjunto de regras, que nenhum de nós entende por completo.

Se na TV e no rádio, apenas profissionais da área de comunicação podem informar, na blogosfera é totalmente diferente. A cultura participativa deu às pessoas comuns a liberdade para publicar seus conteúdos e, como a web é democrática (Lévy), o autor de um blog não precisa necessariamente ser formado em alguma área relacionada à comunicação, marketing e muito menos design ou programação. Hoje em dia pode-se ver um usuário consumidor de mídia denunciando a sua realidade por meio de um blog, informando um fato que ocorreu em sua cidade e até utilizando a blogosfera para lutar pelos seus direitos. 

Uma pesquisa feita pelo governo federal em março de 2014 afirma que os brasileiros confiam mais em informações apresentadas no jornal impresso. Essa desconfiança resulta de muitas notícias falsas que são veiculadas através da internet, entretanto, esta barreira já vem sendo quebrada. Atualmente as pessoas estão sempre com pressa e não tem tempo de acompanhar o que acontece no mundo pela TV, com a revolução digital, todos estão sempre conectados a web e os blogs jornalísticos são um prato cheio para essas pessoas. O jornalismo online torna mais eficaz a veiculação de notícias, além de fazê-las circularem de forma mais rápida e instantânea. A democratização dos conteúdos exibidos na web torna tênue a linha entre produtor e consumidor. Qualquer pessoa pode criar um blog e publicar o que quiser no site, por esse motivo é que se costuma questionar a veracidade dos conteúdos exibidos na rede. 

A cultura participativa está distribuída de forma extensa na web, e, com o passar dos tempos, a expressão continua sendo usada de forma tão abrangente, que o mais adequado seria referir-se ao termo como ‘culturas participativas’. “Realçando com o emprego do plural a ideia de que não estamos diante de um fenômeno único nem tampouco de um conceito monolítico” (Fechine, 2014). Além do jornalismo cidadão, citado anteriormente, tem-se outras formas recorrentes de cultura participativa, como os fandoms. 

A palavra fã é derivada do termo em latim fanaticus, que significa “participante de um templo”. A expressão fandom é utilizada para referir-se a um grupo de fãs, pode ser traduzida como “reino de fãs”. Se antes os fandoms eram marginalizados e vistos de forma estereotipada, hoje os fãs são o centro das atenções para as indústrias e as grandes mídias (Monteiro, 2010). 

Os fandoms são conhecidos por criarem uma cultura e identidade própria dentro dos próprios grupos. Esses grupos utilizam a blogosfera para, além da interação social (Recuero, 2009), se apropriarem e remediarem (Bolter e Gruisin, 2000) o objeto que tanto admiram. Essa apropriação e remediação estão nas versões de fã, em que eles criam uma realidade alternativa àquela apresentada pelo ídolo, através de fanfics (ficção de fã), fanzines (revistas) e fanarts (desenhos). 

Camila Monteiro (2010, p. 10) diz:

Engajados, criativos, e organizados, os fãs da franquia American Idol são autores, jornalistas, investigadores, fotógrafos, desenhistas, designers, e às vezes são todas essas profissões juntas. Tudo isso por um motivo maior: agregar valor a comunidade da qual fazem parte. 

Os fandoms são os grandes incentivadores da cultura participativa. Dentro desses grupos, todos são importantes e todos têm o direito de participar de alguma forma, seja através de criações, em forma de cultura participativa, ou através da inteligência coletiva (Lévy, 1997), com opiniões, comentários e discussões. 

Segundo Pierre Lévy (1997), “ninguém sabe de tudo, porém todos sabem alguma coisa”, seguindo essa linha é que se constrói a inteligência coletiva dentro dos fandoms. No universo em que os fandoms são inseridos, é impossível que alguém esteja a par de tudo o que aconteceu ou esteja acontecendo com o ídolo, é nesse contexto em que a inteligência coletiva será construída e, pelo fato de ninguém saber tudo, é que são estimuladas as discussões em fóruns e páginas de internet (Monteiro, 2010), como nos weblogs. 

A inteligência coletiva nos weblogs é construída através do que Raquel Recuero (2003) chama de webrings. Segundo a autora, o termo webring define o círculo de blogueiros que leem os blogs uns dos outros e interagem a partir das redes de sociabilidade dentro dos weblogs, como comentários, troca de links e referências. 

 O grande diferencial dos blogs é a linha de conexão com outros links, entre esses links, obviamente, há uma ligação maior com outros blogs. Muitos blogs mantém uma página específica, chamada blogroll, dedicada aos blogs que os autores leem, se inspiram e admiram. Esse é um claro exemplo da dimensão social criada na cultura da web. Através da blogosfera, autores e leitores mantém uma relação que os transformam em uma comunidade, pois estas interações geraram laços que unem os indivíduos participantes de cada blog (RECUERO, 2004). 

Conclusões

A blogosfera é muito mais do que um local onde as pessoas despejam suas emoções sem se preocupar em serem julgadas, a plataforma se tornou um meio de socialização e troca de conhecimentos. Apesar de ser um espaço mais individual e pessoal de expressão (Recuero, 2004), os weblogs incentivam a coletividade por meio de suas ferramentas de comentários e trocas de links. A inteligência coletiva passeia por esses meios e transforma uma simples postagem, a princípio, sem pensamentos mais profundos em longas discussões entre autor e usuário, que trocam seus conhecimentos e fortalecem a teoria de Pierre Lévy. 

Este artigo também demonstrou o poder que os fandoms têm sobre a cultura participativa (Monteiro, 2010). Deixamos de enxergar esses grupos como sendo apenas uma legião de jovens enlouquecidos pelos seus ídolos e passa-se a perceber suas atividades como um incentivo à participação social. 
Conclui-se então que os weblogs não devem ser vistos como um meio individual e sim um instrumento de coletividade que contribui ainda mais para a evolução da web e de seus usuários. 
“Liberdade, igualdade e fraternidade”, sem esse novo olhar sobre a blogosfera, jamais se poderia pensar que o lema da Revolução Francesa poderia se aplicar também, não somente aos weblogs, como a cultura cibernética em geral. A cibercultura dos tempos atuais não tolera o silêncio e a desigualdade, todos querem participar e dar suas opiniões, trocar conhecimentos. A blogosfera se torna o espaço ideal para esse tipo de prática, onde um indivíduo fala e o outro discute, reconfigurando este ambiente, antes vertical, e dando espaço a todos de forma igualitária e sem restrições.  

REFERÊNCIAS

AMARAL, Adriana; RECUERO, Raquel, MONTARDO, Sandra (orgs.). Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento editorial, 2009.

BOLTER, David & GRUISIN, Richard. Remediation: understanding new media.
Massachusetts, Cambridge: MIT Press, 1999. 

FECHINE, Yvana. TRANSMIDIAÇÃO E CULTURA PARTICIPATIVA: pensando as práticas textuais de agenciamento dos fãs de telenovelas brasileiras. COMPÓS. Universidade Federal do Paraná: 2014.  

FURUNO, Fernanda. A EVOLUÇÃO DAS MÍDIAS E A INTERNET: Cultura Participativa transformando os meios de comunicação. Dissertação de Mestrado. Comunicação Contemporânea. São Paulo: Universidade Anhembi Morumbi, 2010. 

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 4 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

MONTEIRO, Camila. Fandom: cultura participativa em busca de um ídolo. Revista Anagrama, 2010. Disponível em <http://www.usp.br/anagrama/Monteiro_Fandom.pdf>

RECUERO, Raquel. Em estudo do capital social gerado a partir das redes sociais no Orkut e nos Weblogs. In: Revista da Famecos, n. 28, dezembro de 2005.

RECUERO, Raquel. O Interdiscurso Construtivo. Intexto, Porto Alegre: UFRGS, v. 1, n. 10, p. 1-16, janeiro/junho 2004.

RECUERO, Raquel. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre, Sulinas, 2009.

RECUERO, Raquel. Webrings: As Redes de Sociabilidade e os Weblogs. Sessões do imaginário, Porto Alegre, v. 11, p. 19-27, 2004.

Este artigo foi escrito por mim, Ashley Hawthorne, para a apresentação de um trabalho acadêmico do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Não reproduza sem os devidos créditos.

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