segunda-feira, 18 de abril de 2016

Estamos cercados de idiotas


Há muito tempo temos visto o descontentamento da população com o governo atual. Em tempos de crise, violência e descaso com a população; muitos argumentam pedindo a volta da ditadura, o que seria um paradoxo, pois o que se pede é a volta de algo que fere a liberdade de expressão através do desfruto da própria liberdade de expressão. Nunca antes foi tão nítida a pobreza intelectual do povo brasileiro; onde clamam por mudanças, mas ignoram as aulas de história para fundamentar suas opiniões. Culpam a corrupção dos políticos, mas ao mesmo tempo aplaudem um homem recheado de preconceitos e ódio no poder. Estamos vivendo um momento desesperador não só pela falta de estrutura existente há muito tempo no país, mas também se vive uma crise de valores éticos e morais do povo brasileiro de um modo geral. A solidariedade e coletividade da população se extinguiram há tempos e deram lugar ao egocentrismo e individualismo que se firmam cada vez mais forte no interior de cada um. Quando digo isso, falo também de mim e de você, que antes de tudo pensamos nas nossas prioridades e de nossa família, dando pouca importância às prioridades da sociedade. São nas pequenas corrupções diárias que mora o perigo, é onde se esconde a falta de caráter e contribui para a corrupção que se tornou pré-requisito para se tornar político. Quando se está no poder, esta corrupção se alastra como fogo e anda de mãos dadas com o egoísmo presente no coração de cada brasileiro. Ninguém pensa no povo, só em si mesmo. 

O que se viu esses dias foi fortes mobilizações a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Desde o segundo mandato da presidente tem-se percebido um crescente descontentamento da população com o governo. Foram os escândalos da Petrobrás, foi o PT por muito tempo no poder e milhares de outros fatores que contribuíram para o ódio quase (eu digo quase) geral ao governo. Por muito o povo clamar, suas (nossas) vozes foram ouvidas e iniciou-se o processo de votação para que haja o impeachment da presidente. Primeiro, vamos entender algumas coisas. 

Segundo o nosso querido Google: 

Impeachment é o processo instaurado com base em denúncia de crime de responsabilidade contra alta autoridade do poder executivo (p.ex., presidente da República, governadores, prefeitos) ou do poder judiciário (p.ex., ministros do S.T.F.), cuja sentença é da alçada do poder legislativo.

Como visto acima, o impeachment é instaurado após denúncias de crime de responsabilidade contra, no caso, a presidente Dilma. Para que isso ocorresse, o crime de responsabilidade no qual a acusaram foi pedalada fiscal. Que, novamente segundo o nosso amigo Google são: 

Operações atípicas, não previstas na legislação, utilizadas para maquiar o resultado das contas públicas. Um exemplo claro disso ocorreu por meio do sistema de distribuição dos benefícios sociais do governo.

O governo se defende com o argumento de que a prática foi cometida em governos anteriores e que, na verdade, a Dilma não pode ser acusada de cometer crime de responsabilidade porque esse repasse é na verdade uma prestação de serviços e não um empréstimo. Esse grito da maioria por um impeachment se trata de um golpe, pois a Constituição exige que haja um ato de crime de responsabilidade cometido, o que não ocorreu de fato. Óbvio que podem ter havido (e com certeza houveram) fatos ocorridos com o conhecimento da presidente, mas omissão não é o ato em si e para que se gere um impeachment é necessária a existência de um ato. Além de tudo, o que se vê são deputados desonestos, envolvidos em casos de corrupção, julgando. Não existe julgamento imparcial neste caso, o que existem são manipulações por todos os lados tentando ao máximo impedir as investigações contra a corrupção no qual estão envolvidos. Estão todos preocupados com o próprio umbigo e não com um país mais justo, portanto se trata sim de um golpe! O povo a elegeu através do voto e isto deve ser respeitado. Não se trata de um reality show, onde eliminamos aquele que não nos agradarem, isso deve ser feito na urna, nas próximas eleições, onde finalmente se espera (após este episódio) que as pessoas aprendam a votar com a consciência de que estão sendo representadas por esses políticos. Não faz sentido gritar por democracia e apoiar um absurdo que estapeia o povo, um povo que já apanha da vida todos os dias. Aqueles que apoiam o golpe estão preocupados com seus próprios motivos, eles apoiam, pois sabem que o futuro de sua família será garantido. O que não se deve esquecer é que as pessoas que assumem caso a presidente seja retirada do poder (Temer e Cunha) farão um governo pior do que o dela, sendo um deles um dos políticos mais odiados do país (Cunha), que está incluso em várias listas de acusação contra corrupção.  Ou seja, não adianta pedir por justiça e democracia onde o julgamento é feito pelos próprios ladrões e que em sucessão assumem essas mesmas pessoas desonestas. 


Viu-se nos discursos de (quase) todos os políticos que votaram a favor do impeachment motivos egoístas e individualistas, que prezavam apenas pelo bem-estar de si mesmo e da própria família, ao invés de se preocupar com a população no geral. É uma mostra rápida (e cruel) do que nos aguarda se levar isso pra frente. As minorias serão ainda mais pisoteadas pela sociedade, pois estes que estão na sede pelo poder jamais vão direcionar seus discursos e preocupações elitistas para aqueles que precisam de assistência e visibilidade na sociedade. Não minto quando digo que ouvi um ser falar exatamente estas mesmas palavras: “Eu estou aqui para lutar pela maioria e não pelas minorias”. É esse tipo de gente que está sendo aplaudida. Numa sociedade onde nós já somos oprimidos, perseguidos, esquecidos e invisibilizados, seremos ainda mais massacrados se levarem adiante essa ideia imunda de pisar nos nossos direitos. Levam o nome de Deus e da religião para justificar o próprio cinismo. Num estado que é (ou deveria ser) laico quem tem voz é a religião, a mesma que anda de braços dados com todas as opressões. Estamos cercados de idiotas. Basta dar um replay nos vídeos desse circo que chamamos de votação. Não é preciso esperar muito para ver se estapeando aqueles que deveriam manter a ordem. Além de tudo temos que aturar justificativas com embasamento religioso, coisa que deveria manter distância de política; simplesmente não é o seu lugar. A paz de Jerusalém e o seu filho não são motivos para a presidente ser golpeada. Seu Deus também não tem nada a ver com isso. 

Engraçado que os discursos mais autênticos e que prezam pelo bem-estar da população brasileira foram os mesmos (sem exceção) que foram contra esta baixaria. Aqueles que afirmavam lutar pelo povo pobre, pelos negros que sofrem todos os dias, pela comunidade LGBT e pelas mulheres, foram altamente vaiados, como se estivessem apresentando um seminário acadêmico no qual a turma, ouvinte, não gostou. Ué, se vaiam aqueles que lutam por nós, de quem mais podemos esperar melhora? Teve silenciamento feminino dentro do plenário, teve homem branco parabenizando político corrupto e votando em honra de torturador. É impossível ter esperança de um país melhor quando vemos a própria população saudando uma pessoa com esta índole; que rejeita as diferenças, que agride mulher e aplaude a violência. Estamos cercados de palhaços, de porcos e da massa que se recusa a pensar e prefere optar pelo caminho mais fácil e pensamento mais simples. É difícil sair da própria zona de conforto, por isso preferem ficar no comodismo, olhando para o próprio umbigo e sem visão ampla da própria vida. Por isso são facilmente controlados, convencidos e manipulados. É isso mesmo que eles querem... Algo mais fácil de manobrar. 

Foram nestas pessoas que votamos. Eles não estão nos enxergando. Mas não pensem que é hora de nos dar por vencidos. Eu como mulher negra e periférica enxergo isso como uma oportunidade de lutar e gritar mais forte pelos meus direitos, a diferença é que estaremos sendo pisados com mais força. Isso serviu como um filtro na hora de escolher em quem votar e serviu também como uma mostra da verdade crua, da face real daqueles que colocamos no poder. É preciso mais atenção ao escolher quem irá nos representar e eu não aceito ser representada por golpistas, a luta continua e sei que minhas irmãs estão comigo.

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Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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