quarta-feira, 13 de abril de 2016

Gaslighting e homens falando sobre TPM


Em março deste ano fui ao Festival Internacional de Artistas de Rua da Bahia, que aconteceu no Farol da Barra aqui em Salvador. Fui fazer a cobertura do evento para um trabalho da faculdade e como tema principal a minha equipe escolheu o teatro cômico. Era uma dupla de homens falando sobre a TPM e confesso que concordei com o tema só para saber no que iria dar a apresentação, onde a única certeza que eu tinha é de que eu não iria sair de lá satisfeita. Dito e certo. O nome da apresentação era “TPM Para Homens” e os dois atores interpretavam um casal, um do homem e o outro se fantasiava de mulher para interpretar a moça de tpm. O tempo todo eles ilustraram situações que um casal passa no período pré-menstrual da mulher. Me senti desconfortável, meu rosto tinha uma expressão tensa e em alguns momentos tive que rir para socializar. As situações descritas eram sim verdadeiras, mas tão distorcidas que dava um desconforto só de assistir. A todo o momento a mulher, que estava sendo apoiada pela maioria do público, era mostrada como louca e desequilibrada emocionalmente. A apresentação dava a ideia de que a mulher era sempre a descontrolada, que se irritava sem motivo, que era indecisa demais, dramática demais e que o homem era sempre o que fazia tudo por ela, tratava-a bem e tudo mais. Vi mulheres rindo até a barriga doer, mas sei que na verdade elas tinham consciência de que aquilo estava sendo apresentado de uma forma muito distorcida. Essa mania de por a imagem da mulher como desequilibrada emocionalmente é uma coisa bastante comum e tem nome, se chama gaslighting. 


O termo foi inspirado numa peça chamada Gaslight, onde o marido fazia a esposa acreditar que estava ficando louca e simulava situações para que ela achasse que estava louca de verdade. 

"O título original decorre do escurecimento das luzes alimentadas por gás na casa do casal, que aconteceu quando o marido estava usando as luzes no sótão, enquanto busca um tesouro escondido. A esposa percebe com precisão o escurecimento das luzes e discute o fenômeno, mas o marido insiste que ela está apenas imaginando uma mudança no nível de iluminação."

É uma prática muito comum, principalmente em relacionamentos abusivos, onde o homem usa isso para silenciar a mulher. O ato consiste em abusar psicologicamente alguém e distorcer ou omitir fatos para deslegitimar algo que a pessoa tenha falado para favorecer o abusador, fazendo a pessoa que sofre duvidar de sua própria sanidade. Não precisa ir muito longe para identificar o gaslighting. O assunto sempre está presente nas pautas de coletivos e páginas feministas, mas recentemente foi ainda mais discutido por conta da capa da IstoÉ apontando a presidente Dilma como desequilibrada, nervosa, estressada. Sabemos que muitas das críticas dirigidas à presidente da república são por conta do seu gênero e não do governo que ela faz. Já ouvi muito de pessoas e num jornal, (sim, num jornal) ouvi o apresentador dizer exatamente essas palavras: “essa mulher não tem capacidade de governar o país”. Sem falar nos xingamentos direcionados à ela, que são principalmente ofensas de gênero. Bom, dá para analisar o contexto do gaslight em sua própria vida. Você que é mulher e já esteve ou está em um relacionamento, com certeza já ouviu de seu parceiro em algum momento sobre algo que reclamou: “você está exagerando!”, “está vendo coisa onde não tem”, “pare de se estressar sem motivo”, ou em algum momento de raiva ele provavelmente disse que você estava de TPM. Isso, minhas amigas, se chama gaslight e é a principal coisa que se analisa para saber se você está em um relacionamento abusivo. 

É importante entender que minha crítica não se dirige diretamente à competência dos atores no palco e sim à infeliz escolha de tema para a apresentação. É bastante problemático ter homens cis discutindo sobre uma coisa que só a mulher vivencia. Não há como eles terem propriedade para falar deste assunto, principalmente porque vemos a todo o momento as mulheres serem silenciadas e não levadas a sério, esse tipo de coisa só contribui para o machismo enraizado firmemente na nossa sociedade e para ridicularizar a imagem da mulher. 

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Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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