quarta-feira, 13 de abril de 2016

Minha transição capilar e a descoberta da minha identidade como mulher negra



Desde criança, mais ou menos a partir dos 9 anos de idade, que usei química nos meus cabelos. Antes disso meus cabelos sempre foram muito grandes, com cachos bonitos  e muito, muito volume. Lembro até hoje que as pessoas sempre falavam que meu cabelo era cheio demais e foi então que minha mãe resolveu dar química para “amansar” mais os meus cabelos que eram muito rebeldes. Eu lembro que minha cabeça só faltou explodir de tanto arder e eu, criança, só fiz chorar e dizer que não queria mais aquilo, mas consegui aguentar até o final e ‘voila’, meu cabelo estava “manso”, liso, e eu achei o máximo. Eu que antes tinha que viver com os rebeldes cabelos presos agora poderia usá-los soltos como as garotinhas da minha escola. 

O tempo passou e era sempre o mesmo ritual, eu odiava usar química, mas amava o resultado. A adolescência chegou e passei a viver também escravizada pela chapinha. Meu cabelo chegou a estragar (óbvio) e eu cortei ele bem curtinho. Algumas vezes tomei a decisão de parar de usar tanta química e coisas que estragavam a saúde do meu cabelo, mas sempre que eu falava sobre a minha decisão para minha tia (com quem eu passei a morar na época), ela gritava logo um “NÃO!” bem grande e dizia que eu não ia ficar com o cabelo feio e bagunçado. Mais anos se passaram e eu descartei a ideia da minha mente. 

Recentemente comecei a perceber um burburinho, as pessoas estavam cada vez mais corajosas para assumir seus cabelos naturais e, em contato com isso, passei a sentir vontade outra vez, mas desta vez o sentimento veio mais firme e forte, eu estava mais madura também. Comecei a ter contato com movimentos sociais, primeiro com o feminismo e logo com o movimento negro. Li e estudei diversas pautas do movimento, mas tinha algo com o que eu lia sobre o movimento negro que me deixava desconfortável, era uma pulga atrás da minha orelha. Isso era porque eu me sentia hipócrita, por isso nunca disse publicamente que era do movimento. Como eu poderia lutar contra o racismo e o eurocentrismo da sociedade, se eu ainda me submetia a este padrão? Deixo claro aqui que não estou, se forma alguma, julgando ou criticando quem prefere deixar seus cabelos com química e chapinha, eu sei o quanto é difícil e o quanto pode ser desconfortável pensar em largar tudo isso. Enfim, eu me achava hipócrita por isso, mas a vontade de mudar e me assumir do jeito que eu sou estava ali. Vi conhecidos e amigos finalmente decidindo mudar e o crescimento do movimento, o empoderamento negro cada vez mais forte e um dia eu apenas parei e decidi: “hoje é o momento”. E foi assim. Eu comecei a pesquisar sobre transição capilar e cabelos crespos. Aprendi muita coisa sobre os cuidados, mas percebi muito algo além disso. Algo dentro de mim mudou, e mudou mesmo. Eu não sei explicar, mas a decisão mudou muito sobre quem eu sou. Eu passei a perceber o quanto eu fui oprimida durante todos esses anos e obrigada a aceitar e seguir um padrão na esperança de fazer parte de algo que jamais me aceitariam. Eu estava ali com os cabelos alisados, mas ainda assim eu não fazia parte deles, era apenas a ilusão de que eu estava incluída no padrão, mas eu sempre estive de fora. 

Para passar pela minha transição eu decidi colocar box braids nos meus cabelos, um desejo antigo que eu tinha antes mesmo de pensar em transição. Recebi incentivo de muita gente que falava que eu ficaria linda de tranças, mas isto era no meu meio social que era bastante desconstruído socialmente, entretanto eu vivi o bastante para saber que lá fora não seria um mar de rosas e elogios. Pesquisei sobre tranças nagô e conheci uma vlogger que me deixou apaixonada e com uma vontade gigantesca de usar dreads. Eu lembro que perguntaram para ela o que seria melhor para passar a transição capilar e ela indicou os dreads, sua justificativa foi real e verdadeira: é uma coisa que causa um impacto maior, que grita luta e que mostra que você está resistindo. Coloquei os dreads mesmo contra a vontade da minha mãe, que sempre disse que não me daria dinheiro algum para fazer essas “palhaçadas” no meu cabelo. O único dinheiro que eu ganho é o que ela me dá, então guardei uma quantia e comprei os materiais, como eu sei que não teria dinheiro para ir até uma trancista, aprendi a fazer sozinha e foram 24 horas e uma noite não dormida para colocar os dreads. Estou com eles há uma semana e a diferença é notável, recebi diversos elogios, mas também muito olhar torto na rua. Ouvi de um ser que eu nunca arranjaria um emprego e ouvi também que tive muita atitude e coragem. Sei que tudo o que fizermos no nosso corpo irá agradar e incomodar muita gente, mas o que importa para mim é o impacto interior que isso causou. Eu me sinto mais negra, mais linda, mais poderosa, mais forte. Se antes eu tinha o pensamento de que ser como eu sou era ruim, hoje eu falo que sou negra sem nenhum medo disso, porque ser negro é lindo. Eu fui empoderada, conheci outras pessoas que passaram pelas mesmas coisas e que estão comigo lado a lado. É incrível conversar com essas pessoas porque a vida de quem usava química no período da pré-adolescência e adolescência é uma coisa absurda, ouvir esses relatos me faz ficar com um nó na garganta porque parece que estou ouvindo a minha própria história. Hoje eu entendo muito mais sobre mim mesma e, para quem não tinha autoestima alguma, é um choque se olhar no espelho e estar satisfeita com o que vê. Em partes devo isso aos meus estudos sobre comunicação, minhas leituras sobre movimentos sociais e empoderamento, mas acho que grande parte disso devo ao meu ciclo de amizades que tanto me incentivou e não me deixou desistir. Ainda não cortei a parte com química do meu cabelo, pois não gostei da experiência com cabelo curto, mas foi difícil o pouco tempo que passei com o cabelo natural, tendo que estar com duas texturas e vendo-o feio, me sentindo horrível. É uma verdadeira prova, dá vontade de desistir todos os dias e é assim que se conhece o verdadeiro significado de resistência. 

Apesar de tudo não me arrependo nem um pouco de ter usado química por tantos anos. Essa enorme fase da minha vida foi importante, pois se eu tivesse os cabelos naturais desde sempre, apesar de evitar muito sofrimento, não sei como eu chegaria a ser quem eu sou hoje, não sei se esse pensamento se desenvolveria. Fico feliz pelo tanto que evoluí, com algo tão simples e que parece bobo como cabelo. A verdade é que essa coisa simples tem uma enorme carga. Hoje me sinto satisfeita em como estou, esteticamente e ideologicamente falando. Meus dreads são o símbolo da minha reafirmação como mulher negra e hoje tenho ciência do peso que isto traz. Me sinto feliz, satisfeita e maravilhosa; finalmente empoderada e pronta para continuar uma luta junto aos meus irmãos e irmãs, que se iniciou há muito tempo. 

Finalmente dando close certo!


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Sobre o blog


Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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