sexta-feira, 27 de maio de 2016

Feminismo para leigos


Bom, ando escrevendo por aqui com muita frequência e fico feliz em receber feedbacks dos amigos, conhecidos e desconhecidos que leem e dizem ter compreendido ou se identificado com as coisas que escrevo. Pensando nisso, resolvi esclarecer algumas coisas sobre o feminismo para quem não compreende o movimento. Tivemos um caso absurdo de estupro coletivo recentemente e isso deixou muita gente indignada, mas também foi a famosa chance que as pessoas acharam de escancarar o quanto têm pensamentos conservadores. Escrevi muita coisa sobre o caso. Foram diversos textos, pois fiquei (e ainda estou!) revoltada com a situação. E a partir disso, as pessoas se sentiram à vontade para interpretar minhas palavras da forma que quiseram e acabaram distorcendo muita coisa do que é dito dentro do movimento feminista. Porém, sei também que existem pessoas que não conseguiram compreender (e buscam isso), por isso estou aqui com toda a calma e paz no coração para explicar com calma alguns termos que são bastante distorcidos ou pouco compreendidos sobre o movimento feminista. 

Faço isso porque espero de alguma forma contribuir para que o machismo diminua na sociedade e sei que a educação é a melhor forma de se fazer isso. Apesar de minha militância ser para empoderar as mulheres, me dirijo também aos homens neste texto, mas me dirijo aos homens que realmente querem entender e aprender. 

Agora peço que, por favor, se dispam de suas próprias definições acerca do assunto. Só peço que leiam de alma e coração aberto e se sintam a vontade para perguntar. 


Machismo: a ideia de que homens são superiores às mulheres. É claro que o significado vai muito além dessa definição. O machismo está na sociedade há tanto tempo que já se fincou e as pessoas reproduzem até mesmo sem saber. É uma forma de invisibilizar e tirar o espaço e direito das mulheres. 

Feminismo: movimento que busca igualdade social entre homens e mulheres. Ao contrário do que muitos pensam, o feminismo não é o oposto do machismo. O movimento das mulheres existe para lutar pelos seus direitos, para conscientizar outras mulheres que são vítimas da opressão e trazê-las para a luta.

Femismo: é a ideia de que as mulheres são superiores aos homens e que os dominam. Seria o contrário do machismo, porém é um termo hipotético... O femismo não existe, pois os anos de dominação masculina sobre o gênero feminino não permitem que uma mulher oprima um homem. Mesmo quando uma mulher xinga ou menospreza um homem, ela não está sendo femista, isso se configura como ofensa, preconceito ou qualquer outra coisa a que esteja associado, dependendo do contexto. O femismo não existe e é um ato impossível de ser praticado, principalmente pelo fato de que as mulheres não possuem mais direitos e privilégios do que os homens na sociedade e sim o contrário. 

Patriarcado: o termo é utilizado para explicar a posição em que a mulher se encontra na sociedade e as formas de dominação masculina. É também um termo que se estende, mas basicamente significa o que já foi dito. Em outras palavras: o sistema baseia-se na dominação do homem sobre a mulher e na centralização da masculinidade. Isso está presente, por exemplo, no discurso de que uma família só é bem estruturada com a presença da figura do homem, na ideia de que a mulher não pode viver sem o homem e também na ideia de que o homem é o chefe da casa, quem toma todas as decisões, quem está a frente de tudo. 

Misoginia: ódio/repulsa ao gênero feminino e suas características. Isso pode aparecer de forma mascarada, que inclusive é a mais comum. É uma questão cultural e também se esconde em atitudes pequenas. A misoginia pode ser identificada, por exemplo, no desprezo ou ridicularização às mulheres que são femininas. É misógino criticar o órgão sexual feminino, enquanto o órgão masculino é enaltecido como símbolo de poder. Quando debocham de atitudes ditas como “de mulherzinha”, e até mesmo quando as mulheres estão desprezando a si mesmas e ao próprio corpo, estão sendo vítimas da misoginia que as fazem acreditar que não devem amar a si mesmas. 

Misandria: seria o oposto à misoginia, no caso o ódio/repulsa ao gênero masculino e ridicularização de suas características. Entretanto a misandria não existe pelo simples fato de que a masculinidade é supervalorizada na sociedade, e a misoginia está estruturada e enraizada. O ódio que existe de algumas mulheres contra os homens podem ser entendidos como uma reação de autodefesa, pois de tão acostumadas que estão com a opressão dirigida a elas, acabaram por se revoltar. 

Por que mulher não pode ser machista ou misógina? 
Muitas pessoas se confundem ao ver mulheres apoiando ideais machistas e acham que elas estão praticando o ato de ser machistas ou misóginas, mas na verdade isso é impossível. Quando uma mulher acredita que o homem é superior, ela reforça as correntes do patriarcado, porém está apenas reproduzindo um discurso machista que lhe foi ensinado pela sociedade. A mulher nunca conseguirá oprimir praticando o machismo e a misoginia sobre outra mulher, pois no final de tudo ambas estão no mesmo lugar na sociedade. 

O que é ser estuprador em potencial? 
Quando uma mulher diz que todo homem é estuprador em potencial, não está chamando todos os homens de estuprador. O termo “estuprador em potencial” é usado para definir todos os homens, pois a própria figura masculina em si já é opressora. Óbvio que sabemos que existem homens bons e respeitosos. Entretanto numa situação onde há um homem e uma mulher numa rua escura, a mulher sentirá medo do homem somente pelo fato dele ser homem, ela não sabe se ele é uma pessoa de bem ou não, mas ficará com medo de qualquer jeito. Por isso é usado esse termo, o que não significa que todos os homens sejam estupradores e sim que possuem uma figura opressora. 

Por que a figura do homem em si é opressora? 
Essa questão segue a mesma lógica do termo “estuprador em potencial” e inclusive foi explicado acima, mas vale reforçar. Durante a socialização do homem, ele está o tempo todo sendo ensinado diversas coisas que o fazem ser opressor. Sim! Isso não quer dizer que as pessoas que ensinam tenham a consciência do que estão fazendo. E voltando à questão do homem e da mulher sozinhos numa rua escura... O homem estará oprimindo a mulher somente por deixa-la com medo, e isso independe de ele ser ou não uma boa pessoa. 

O que é cultura do estupro? 
Outro termo extenso e que vai muito além do óbvio. A cultura do estupro é o pandemônio em que a sociedade atual vive. Onde as vítimas são culpadas por serem atacadas, onde casos de assédio e violência contra a mulher são normalizados. A cultura do estupro está presente em grande parte dos espaços e se mostra, mas também se esconde. Ela está ali quando são compartilhados vídeos vazados que expõem mulheres, em algumas linguagens usadas para defini-las, na ideia de que o estupro é algo que não pode ser evitado, no assédio nas ruas, no toque sem permissão, no assédio físico, na ideia de que a mulher não pode usar certo tipo de roupa senão vai merecer ser estuprada, no “elogio” invasivo dirigido à ela, na forma desconfortável que se olha seu corpo, na objetificação de seu sexo. São inúmeros fatores que configuram a cultura do estupro e é algo que está tão presente no dia-a-dia que muitas vezes passa despercebido. 

Por que homem não pode ser feminista?
O feminismo é um movimento feito de mulheres para mulheres. O homem pode ser pró-feminismo e apoiar a causa, mas sempre como um observador que absorve e aprende sobre os assuntos tratados, mas jamais ser feminista pois ainda tem o poder de oprimir uma mulher e porque tem privilégios que nos são negados. 

Por que homem deve se calar e ouvir quando uma mulher fala sobre feminismo?
O tempo todo, as mulheres têm seu protagonismo roubado, inclusive no próprio movimento. Há muito tempo elas falam e gritam que merecem ter seus direitos reconhecidos, há muito tempo exigem ser ouvidas e sempre há um homem sendo aplaudido por falar exatamente o mesmo que mulheres dizem há séculos e não são ouvidas. Esse roubo de protagonismo dificulta o objetivo que as mulheres têm de serem respeitadas e ouvidas. Por isso que o homem não é aceito dentro do feminismo como participante ativo, como disse acima, é um movimento para mulheres e o homem participa apenas como ouvinte. A sua contribuição para o movimento é quando ele desconstrói o colega machista que está sendo babaca ou quando ele reflete sobre as próprias atitudes e tenta o máximo deixar de praticar alguns atos machistas. O principal passo para contribuir com isso é acreditar quando uma mulher fala que ele está sendo machista. Se ela disse isso, é porque está, e o homem deveria tentar entender qual foi a atitude e não tornar a repeti-la. É importante reforçar que o machismo está muito em estruturado na sociedade e muita coisa do que é dita acaba revelando um machismo disfarçado, inclusive as próprias mulheres são vítimas disso, pois todos os dias reproduzem um discurso misógino sem saber. 

Por que uma mulher não pode oprimir um homem? 
Voltamos à mesma lógica do femismo e misandria: o patriarcado é um sistema que existe há séculos e ocupa todos os espaços. A dominação do homem sobre a mulher é tão grande que seriam necessárias várias lavagens cerebrais para que os homens acreditem que são inferiores às mulheres e passem a ser dominados por elas. A mulher se encontra numa posição inferior na sociedade e é por isso que nunca conseguirá oprimir um homem, pois eles mesmos têm mais direitos e privilégios do que ela. 

Por que o feminismo generaliza os homens? 
A generalização causa uma revolta masculina tão grande que acabam por odiar o movimento sem ao menos conhecê-lo. O feminismo está o tempo inteiro falando de dados e estatísticas que evidenciam problemas que as mulheres passam todos os dias. Quando se fala de estupro e assédio, a generalização é ainda maior. É necessário entender que sabemos que nem todo homem é estuprador, criminoso ou babaca. Mas não podemos deixar de falar dos casos só porque existe uma minoria que é exceção. Infelizmente as exceções que respeitam o espaço da mulher são uma minoria. Então não faz sentido se sentir ofendido quando uma mulher fala que homem estupra, que homem assedia, porque é isso que fazem... Mas se você não faz, não há motivo para estar ofendido e sim para ficar revoltado com o que o seu gênero pratica. 

Esses dados são apenas alguns dos milhares que existem e justificam o motivo das mulheres continuarem lutando

O feminismo é difamado o tempo inteiro pela sociedade. Somos tachadas como loucas e histéricas por estarmos tentando ser ouvidas. Nossas palavras são mudadas e distorcidas para que fortaleça o discurso de que somos extremistas e feminazistas. Espero que esse post tenha ajudado alguém a compreender algumas coisas. Eu sei o quanto é difícil não ficar com raiva numa discussão via comentário ou chat, é difícil compreender o que a outra pessoa está querendo dizer e muitas vezes o ódio nos faz interpretar as coisas de uma forma totalmente diferente. Mas mais do que isso, sei como é não ser compreendida, como é ter o discurso distorcido e como é difícil engolir a raiva e o nervosismo para tentar ser didática. Eu engoli minha raiva e tentei ser didática, espero que tenha servido para alguma coisa. Quis escrever isso porque já estou cansada de ver o movimento sendo difamado, isso afasta as mulheres que queremos empoderar e isso é totalmente prejudicial. Espero que um dia possamos viver em paz, sem essa ideia ridícula de rivalidade entre homens e mulheres. Nós não queremos tirar seus direitos, apenas queremos tê-los também e, infelizmente, não iremos consegui-los se ficarmos sentadas aceitando tudo o que nos dizem. 






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Sobre o blog


Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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