segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A cultura negra é popular mas os negros não



Vocês já devem ter visto essa frase muitas vezes. E se não viram, estão vendo agora. 

Não é novidade para ninguém que estamos vivendo uma época de valorização da cultura negra. Nós, negros, nos empoderamos, aprendemos a amar nossa cor, nossos cabelos, nossa estética e, adivinhem: começamos a incomodar também. O que tem de branco se sentindo incomodado com os negros dizendo que ser preto é poder, não tá num gibi. Mas temos também os brancos que entenderam tudo errado e começaram a achar que estamos na moda. 

Sim, é exatamente isso que você leu. 

De uns tempos pra cá, na internet, tenho visto uma grande quantidade de pessoas brancas adotando elementos da estética negra para as próprias vidas. Usando química para encrespar os cabelos, fazendo box braids, dreads, usando turbantes e virando os maiores negros da história que nós respeitamos¹ com os famigerados bronzeamentos artificiais. 



Quem é preto e sentiu o eurocentrismo na pele a vida inteira acha isso uma afronta sem tamanho. É impossível ter passado por um processo, mesmo que mínimo, de desconstrução e não se ofender com esse tipo de coisa. Já vi pessoas alegando que sempre acharam bonito, que queriam fazer um penteado diferente, usar um estilo mais exótico. E sim, temos negros que defendem essas pessoas e ainda dizem que nós é quem somos os racistas da história. Mas calma, eu os entendo, é difícil se desprender desses discursos. 

Mas vamos ao ponto. 

Tudo isso é problemático pelo simples fato de terem nos dado as costas durante a vida inteira, inclusive nos dias de hoje. Não vamos pensar que só porque os brancos acham a estética negra bonita que os negros seriam bem aceitos na sociedade. É a mesma branca que usa química para encrespar os cabelos que olha torto para uma preta que vai num casamento, formatura ou entrevista de emprego com o seu black armado. É a mesma que se acha o máximo por ter nascido com o "cabelo bom". É a mesma que pergunta se é difícil de pentear. É a mesma que chama a preta de "macumbeira" por estar usando um turbante. É a mesma que acha que a preta colocou box braids porque o cabelo era "ruim demais". É a mesma que olha atravessado pra mulher preta por achar que é barraqueira. É a mesma que atravessa a rua quando vê um preto porque acha que ele vai assaltá-la. É a mesma que olha um preto bem arrumado e acha que as coisas dele são roubadas. É a mesma que olha pra um preto com dreads e acha que é mendigo e drogado. 



E ainda perguntam porque negros reproduzem tanto racismo. Está em todos os lugares, em todos os discursos, desde que nascemos. Passamos a odiar nossa cor e nossos corpos, nossos cabelos e nossa cultura. E quando nos empoderamos tentam sugar o pouco de orgulho que conseguimos sentir por nós mesmos. Nossas músicas imploram por igualdade e eles continuam cantando, mas não param de nos odiar. Ignoram nosso canto. Pegam nossa história e jogam nas passarelas. Pegam nossa juventude e jogam nos presídios e nas esquinas. Sexualizam nossos corpos, nos escravizam e fingem que nos libertam, mas não temos o direito de andar na sociedade sem uma corrente no pescoço e um chicote no lombo

Por isso falamos tanto sobre apropriação cultural. Usurpam nossa cultura e continuam nos marginalizando. Falam da beleza de nossa estética, mas quando nós a usamos somos ridicularizados. 

Falam de nossa cor mas continuam nos matando. 

¹ Referência ao meme que critica Kylie Jenner por aparecer em fotos cada vez mais negra. Notícia: https://goo.gl/Tn9QBt

Vídeo esclarecedor sobre apropriação cultural:


E para os que falam sobre racismo reverso: 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre o blog


Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

Newsletter