sábado, 22 de outubro de 2016

A construção de imagem da mulher brasileira



Recentemente apresentei um trabalho na faculdade onde eu tinha que analisar como foi construída a imagem da mulher brasileira. Li alguns textos e artigos, e como gosto bastante do tema resolvi trazer para o blog. 

O autor Roberto DaMatta traz em seu livro, "O que faz o brasil, Brasil?", o capítulo "Comidas e Mulheres", onde diz que o brasileiro é bom em três coisas: bom de boca, bom de cama e bom de bola. Aqui no Brasil o sentido conotativo da palavra "comer" se refere ao sexo e é a partir desta informação que irei discutir sobre a construção feita sobre a identidade da mulher brasileira.

Sabemos que no exterior as mulheres brasileiras são conhecidas pelos corpos exuberantes, principalmente em questões de bunda e peito. Mas se pararmos para analisar, todo esse processo de construção da imagem feminina no Brasil é reforçada e perpetuada pelos próprios brasileiros ao demonstrar veneração excessiva à fenômenos como as Mulheres Fruta, por exemplo.

A todo momento os brasileiros estão reduzindo suas mulheres a meros objetos que devem ser apreciados e consumidos. O argumento de muitos homens é que, sim, as mulheres gostam de serem reduzidas a objetos de consumo. Mas será mesmo que elas estão cientes disto? A construção feita em cima da mulher predetermina seus gostos e até comportamentos, então seria muito simples dizer que as mulheres gostam disso. Não, o buraco é mais embaixo. Se o tempo inteiro são ensinadas que só servem para o consumo dos homens e que devem fazer coisas para agradá-los, é meio óbvio que muitas iriam buscar esta realidade e o "gostar de ser tratada assim" vem do próprio lado masculino de mostrar que elas estão fazendo o correto. E a partir deste desejo de serem aceitas, muitas mulheres passam horas na academia exercitando o corpo para ficarem apresentáveis, durinhos e sem nenhuma marca natural.

Um grande problema que se tem não só no Brasil é que há toda uma contribuição para a objetificação feminina vindo de todos os lados das indústrias. A indústria cinematográfica é uma das que contribuem fortemente para essa coisificação da mulher ao colocá-las apenas como meros apetrechos nas tramas. Não se vê mulher dirigindo grandes produções, estão sempre por trás de um "grande homem". E quando recebem um papel de destaque, muitas vezes são sexualizadas ou, mais uma vez, sendo um apetrecho para mostrar que o grande protagonista é o homem, seja com a história girando em torno do seu sofrimento por ele ou algo do tipo.

Voltando a falar da hipersexualização feminina no cinema, temos um exemplo muito próximo e recente que é a personagem Harley Quinn, da adaptação de Esquadrão Suicida. Quem é fã dos quadrinhos deve saber mais do que eu que a personagem já é sexualizada desde sua criação. Mas o que a produção do filme fez com a personagem, e com a atriz, beirou ao extremo. Já deve ser problematizado o motivo da existência de uma personagem totalmente sexualizada, e sofrendo graves abusos do homem por quem ela é apaixonada, em uma história feita para o consumo masculino e (principalmente) o fato de ser romantizada essa relação que ela tem com o personagem Coringa. Aí vem a indústria cinematográfica e faz o quê? Coloca a atriz com uma roupa milhões de vezes mais curta e justa e passa a dar closes de cinco segundos na bunda da atriz (a cada cinco segundos). Estamos falando da construção de imagem da mulher brasileira, mas este é um exemplo de como são tratadas a todo momento em novelas, programas de televisão e afins.

Harley Quinn no cinema

Harley Quinn nos quadrinhos


De outro lado tem a publicidade brasileira que consegue ser um pouco mais escrota que nos demais países. Se colocarmos "publicidade machista" no Google, a quantidade de propaganda misógina que irá aparecer chega a ser assustadora. E o prêmio de publicidade mais misógina e machista vai para, é claro, as propagandas de cerveja! Sabemos que o Brasil é um país tropical, cheio de belezas naturais, praias e... mulheres. É sempre assim que se referem ao Brasil quando falam de seus "atrativos". As propagandas de cerveja exploram bastante esses pontos para produzirem suas campanhas e os resultados são os piores possíveis. Como muitos publicitários ainda têm essa ideia ultrapassada de que apenas homens consomem cerveja, eles baseiam suas ações apenas neste público alvo e ofendendo outros como as próprias mulheres e pessoas homossexuais. Em grande parte dessas propagandas tem-se a presença de mulheres de biquíni na praia e exibindo seus corpos. Voltando ao que eu havia dito anteriormente: há uma veneração excessiva em torno do peito e da bunda. E a forma como essas mulheres são colocadas chega a ser desconfortável e absurda até para quem assiste. Não brinco nem um pouco quando digo que, sim, eu já vi uma propaganda extremamente misógina onde o homem trata a cerveja como se fosse uma mulher, o seu grande amor e etc. Tem também o outro lado que menospreza a mulher afirmando que a cerveja tem vários pontos que não os decepciona. Como se fôssemos feitas apenas para agradar aos homens, sem desejos e vontades próprias, esquecendo que nós somos seres humanos, que pensamos e temos sentimentos. E há também a fórmula que 80% das campanhas usam que é a de ficar sussurrando "gostosa" e "delícia" no comercial, com a imagem de uma mulher com uma cerveja, onde elas apenas exibem o produto na tela ou o serve aos homens. Podemos destacar um grande nome deste meio que é a marca Skol, que adora colocar uma gota camarada de misoginia em suas ações promocionais, hipersexualizando o corpo feminino e incentivando o estupro e abuso sexual.


Acima uma propaganda da Skol, veiculada no país inteiro e que gerou grande revolta entre as mulheres, porque como podem ver, incentiva de forma escrachada a prática do assédio, abuso, estupro e afins. Que é inclusive o grande problema dos homens: não aceitar o significado da palavra "NÃO". E depois de terem o filme queimado, eles resolveram fingir que não apoiam essas práticas e veiculam outra campanha repreendendo essas atitudes. 


Eu poderia passar a vida inteira dando exemplos de campanhas de várias marcas de cerveja e outros produtos que veiculam propagandas misóginas, mas temos que partir para outro ponto importante, que talvez seja um dos centrais onde há contribuição da objetificação do corpo feminino. É a indústria pornográfica. Seria perfeitamente normal a produção de filmes sobre sexo explícito se esta, assim como outras coisas, não fosse feita somente para o consumo masculino. E é então que a mulher, novamente, é apenas o atrativo, o objeto, o apetrecho do filme, servindo apenas para excitar os homens que assistem. Nestes filmes as mulheres têm um falso protagonismo. Apesar de estarem a quase todo o tempo sendo expostas na tela, a forma como as mostram é totalmente violenta. E daí destacamos o dado de que o Brasil é um dos países que mais consomem pornografia no mundo. E, se tivermos um pouco de senso crítico e conexão com a realidade podemos perceber que 1) a pornografia se trata de um estupro filmado, sendo totalmente violento e mostrando a mulher como submissa e dominada; 2) a forma como o sexo é mostrado nos filmes não chega nem perto da realidade. Essa indústria serve apenas como um reflexo do sistema patriarcal existente na sociedade, onde o homem é sempre o que exerce o poder sobre a mulher. 

Temos outros pontos para tratar, como o turismo sexual, a hipersexualização da mulher negra e das crianças e outras grandes práticas que contribuem para a objetificação do corpo feminino, mas isso é assunto para outra conversa. 

Por hora tiramos a conclusão de que a mulher brasileira é loira e com muita bunda e peito. Talvez ela seja uma fruta, talvez seja um tipo de carne (ou todos), ou quem sabe ela seja uma cerveja: loira, gelada e gostosa. 

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Sobre o blog


Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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