quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

REVIEW | Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa; de Emicida



Emicida é um dos rappers mais renomados do Brasil. Muito conhecido entre as novas e antigas gerações de fãs de rap e referência para muita gente que trabalha ou sonha em trabalhar dentro do cenário do hip hop. 

Em 2015 ele lançou o seu álbum mais recente, "Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa" e em 2016 ele seguiu com a divulgação do álbum, promovendo shows pelo Brasil e produções diversas, como videoclipes, a partir do selo da gravadora independente, Laboratório Fantasma

Ouvi o álbum sem conhecer nenhum trabalho anterior de Emicida, a não ser a música "Levanta e Anda", que fez parte da trilha sonora do Fifa 2015. Então, ao ouvir o disco não tive relances de comparações com os trabalhos anteriores e opiniões sobre a evolução do artista ao longo dessas produções. 

Quando ouvi o álbum completo pela primeira vez me senti emocionada, tocada, representada. É impossível alguém que teve as mesmas vivências não se arrepiar com cada letra de música presente nesse trabalho incrível. O "Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa" traz 14 faixas que contam histórias sobre as vivências diárias de uma pessoa negra. O mais incrível é ver como Emicida conseguiu trazer outro ritmos tradicionais do Brasil e ainda manter viva sua identidade, a estética do rap e fazer essa mistura que, inclusive, enriqueceu muito as músicas e o conjunto completo do álbum. 

Impossível não comentar sobre as participações incríveis que ele trouxe para o álbum. As parcerias vão de Caetano Veloso à Rico Dalasam e é sobre essa mistura que eu falo, desses diferentes estilos que compõem o conjunto do disco, enriquecem o trabalho e traz essa característica genuinamente brasileira, que é a mesclagem, a mistura dos ritmos.

Mãe (Part. Dona Jacira e Anna Tréa)

O disco abre com a música "Mãe", que conta com a participação de Dona Jacira e Anna Tréa. A música traz uma letra forte, onde fala sobre (claro) mães. Ele inicia a música falando sobre como essas mães vivem lutando para sobreviver na sociedade que não dá oportunidades às pessoas negras. Tem versos que descrevem muito o trabalho de doméstica, da vivência dessas mulheres que, mesmo com tantas dificuldades, carregam o mundo nas costas, protegem seus filhos e trabalham e batalham para ter uma vida mais digna. Sem dúvidas não poderia existir versos melhores para descrever uma mulher, mãe, negra: "Desafia, vai dar mó treta / Quando disser que vi Deus / Ele era uma mulher preta".

Baiana (Part. Caetano Veloso)

Nesta faixa Emicida traz um grande nome da Música Popular Brasileira e da música baiana para falar sobre a Bahia. É uma das minhas músicas favoritas do álbum por trazer um clima mais aconchegante, por falar da Bahia e por ter uma sonoridade calma. A música fala de uma mulher baiana, onde o autor se sente encantado com a sua beleza. Emicida traz elementos e referências à religiões de matriz africana e faz ótimas rimas com bairros e localidades de Salvador. Acho que não poderia haver participação melhor nesta música do que Caetano Veloso. A melodia é muito calma, o vocal é o mais limpo do álbum inteiro e a voz de Caetano combinou perfeitamente com o som e a temática da faixa. Mesmo com a calmaria da música, Emicida conseguiu deixar presente o seu estilo e sua voz ficou muito boa sendo apresentada de uma forma mais calma e limpa.

Chapa (Part. Batuqueiras do Terreiro dos Órgãos)

Sem dúvida alguma a melhor música do álbum inteiro, a mais forte e a que mais toca na alma de quem ouve, principalmente se for alguém que vive ou conhece a vivência da população periférica. A música é uma verdadeira denúncia ao abuso de poder da Polícia Militar e do racismo fortemente presente entre esses policiais. É a história de um homem negro que foi morto pela polícia e deixou saudades entre a família e os amigos. Emicida conta diretamente para esse "chapa" o que aconteceu após a sua morte e toda a angústia que causou entre o local onde ele vivia e as pessoas que mantinha relações. É uma música muito forte e tem uma letra pesadíssima e totalmente angustiante. Quem vive essa realidade se sente totalmente angustiado ao ouvir a música. E, para melhorar esse trabalho fantástico, o artista lançou o clipe da música com a participação de várias mulheres que tiveram os filhos assassinados pela polícia. E então, junto com a letra da música, e essas mães mostrando seus rostos e fotos dos filhos, fica impossível não se emocionar com essa faixa.

Boa Esperança (Part. J. Guetto)

"Boa Esperança" é outra música que traz uma denúncia ao racismo vivido pelos negros, principalmente no Brasil. Na música ele fala como se fosse um negro para um branco, onde ele diz o que uma pessoa negra foi obrigada a viver por conta do racismo. Fala dos espaços ocupados por negros e como isso é ainda uma consequência da escravidão e ninguém se preocupa em dar oportunidades para essas pessoas e mudar a realidade. Tem versos fortes, onde o autor faz uma analogia da favela com a senzala e sobre como os negros são muito falados em universidades e colégios, mas poucos são os que tem a oportunidade de estar nesses espaços. É um verdadeiro desabafo, onde ele despeja tudo o que um negro ainda sofre na sociedade. A música se trata de um rap mais pesado, com versos despejados com raiva, ódio, e retrata muito bem o sentimento de um negro marginalizado, que sofre diariamente todos esses preconceitos e já está exausto. 

Mandume (Part. Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzik e Raphão Alaafin)

"Mandume" traz grandes nomes do rap brasileiro, de diversos estilos e vivências. É também uma música que denuncia a realidade do povo negro, mas desta vez traz menos ódio e mais resistência, mais superação. A música abre com as rimas de Drik Barbosa falando sobre feminismo negro e sobre o machismo ainda presente no universo do rap. Outra participação interessante é Rico Dalasam, que foge do esteriótipo do rap mostrando que chegou para quebrar os paradigmas inclusive entre cenário do rap que ainda é bastante LGBTfóbico também. A música contou também com a produção de um videoclipe com todas essas participações e foi incrível ver quanta representatividade Emicida trouxe. Durante o clipe ele mostrou mulheres e homens negros valorizando sua beleza, tendo a estética negra está muito presente na composição do clipe. Há várias cenas onde mostram esse protesto pela representatividade negra, principalmente na mídia, mostrando as revistas nas bancas estampando capas com rostos apenas de pessoas brancas e intervenções onde esses rostos são substituídos por grandes referências para o movimento negro. É um clipe maravilhoso, que faz uma pessoa negra se sentir linda e representada. É um trabalho para valorizar essa estética e toda a arte genuinamente negra que é tão pouco vista e enaltecida. 


Por fim, no geral, o álbum é bastante rico em elementos da música brasileira e trabalha muito bem com artistas de outros estilos. É um trabalho que desabafa tudo o que um negro gostaria de gritar para a sociedade. No intervalo entre algumas músicas há também intervenções que mostram versos sendo recitados, onde falam sobre racismo, sobre negritude e valorizam a história do povo negro, trazendo grandes nomes que fortalecem o movimento negro e lutaram na história para que esse povo tenha a vivência um pouco melhor do que era antes. É um álbum muito forte, que prega resistência e traz uma proximidade muito grande com quem vive a realidade retratada nas letras. Me identifiquei bastante e me emociono com a maioria das músicas. Emicida fez um trabalho fantástico e trouxe todos os elementos que poderia para enriquecer essa produção incrível.

Nota: 9.5/10

Minha foto com Emicida na sua passagem por Salvador, onde ele se apresentou na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, promovendo o álbum ♥ 

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Sobre o blog


Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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