terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Studio7 | The Dreamers: um tributo ao cinema e a não vivência da realidade


“Prazer sem restrições”: The Dreamers, um tributo ao cinema e a não vivência da realidade.


Maio de 68 foi marcado por uma onda de manifestações estudantis que se iniciou nos arredores de Paris e protestavam contra a proibição de alojamentos com homens e mulheres . Logo após essa primeira inquietação estudantil, vários outros estudantes foram às ruas manifestar por mudanças políticas e sociais.

As manifestações chegaram em Paris logo após o fechamento da Universidade de Sorbonne e os manifestantes pediam a renúncia do então atual presidente Charles de Gaulle. o movimento recebeu apoio dos operários que aproveitaram o momento de efervescência para então iniciar a greve mais longa da história com cerca de 9 milhões de trabalhadores. 

É nesse contexto histórico que o filme The Dreamers, de Bernado Bertolucci, se passa. “Os Sonhadores”, título da obra no Brasil, conta a história de Matthew (Michael Pitt) um estadunidense que, morando em Paris, vive sua cinefilia nas primeiras fileiras da Cinemathéque de Paris, mas tem seu prazer interrompido quando o diretor do cinema é demitido, então conhece os irmãos Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel) num protesto contra a demissão do diretor.



Matthew passa por certos “rituais de aceitação” para fazer parte do grupo e acaba juntando-se aos irmãos e indo morar no luxuoso apartamento deles. Mas é com sua estadia lá que Mattew percebe o quando a relação dos irmãos é sexualizada quando os vê dormindo juntos e completamente nus.

Ao passo que estouram manifestações pelas ruas de Paris, os jovens permanecem dentro de casa. Theo discutindo política, mas sem ir a janela vê a realidade, é como se ele a negasse ao passo que jura vivê-la. O slogan dos jovens franceses nesse período era “Prazer sem restrições”, propaganda esta que Theo e Isabelle aparentam viver por meio de uma prática incestuosa quando, na verdade, a relação só beira à normalidade ou uma vivência da fase que está entre a infância e a vida adulta. 

Essa vivência social é comentada em “A Era dos Extremos” de Eric Hobsbawn, onde o historiador explica que, em virtude do aumento do contingente de universitários no pós 2° Guerra, esses jovens não aceitavam serem categorizados como adolescentes, mesmo ainda não sendo adultos. E, por terem vivido num período de alto crescimento econômico, eles acreditavam que os recursos eram ilimitados e todas as suas reivindicações poderiam ser atendidas. Theo é a personificação desse jovem, mas o jovem que queria apenas ter seus desejos atendidos, mas sem ter que se juntar aos demais para consegui-los.

Esse filme é um grito de uma juventude num momento de efervescência política e o que fazer com essa tal liberdade.

Será que realmente somos adultos? Não dá pra voltar a ser adolescente e vivermos no nosso mundo secreto aonde nós ditamos as regras, fazemos os jogos e somos apenas expectadores do que acontece nesse mundo de loucos? 

The Dreamers é um verdadeiro tributo ao cinema, pois revive cenas clássicas das maiores obras da 7° arte como O Acossado de Jean-Luc Godard e tem uma trilha sonora que vai de Édith Piaf, The Doors a Jimi Hendrix.


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Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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