segunda-feira, 20 de março de 2017

CRÍTICA | Vênus Negra: a objetificação e hipersexualização da mulher negra


SINOPSE 

O filme conta a história de Saartjie Baartman, uma mulher sul-africana da etnia hotentote, que deixa a África do Sul rumo à Europa, acompanhada por Caezar, seu mestre. Caezar promete a Saartjie um emprego fixo em um circo, onde ela facilmente ficaria rica, mas na verdade ela vê-se obrigada a exibir seu corpo para curiosos em Londres. Devido à sua aparência e seu traços corporais de uma hotentote, Saartjie é vista como uma mulher exótica pelos europeus.

As discussões sobre a hipersexualização do corpo negro é recente e anda cada vez mais presente nas rodas de conversa sobre feminismo negro e interseccional, entre outras vertentes. Entretanto, a discussão deve ser estender ainda mais, pois se trata de uma questão pouco discutida na sociedade de um modo geral. Durante séculos as mulheres negras foram hipersexualizadas e tiveram seus corpos coisificados e abusados. Hoje em dia isso se reflete na sociedade de forma, apesar de ainda violenta, um pouco velada. Fenômenos das mídias de massa como Mulheres Fruta e, principalmente, Globeleza, contribuem para a sexualização exacerbada do corpo negro. Desde sempre esteve enraizada a ideia de que a mulher negra era para o sexo e a mulher branca era para namorar e apresentar para a família. Por isso as pautas sobre a solidão da mulher negra são ainda muito intensas dentro do feminismo negro, as mulheres negras sempre foram clandestinas nesta questão e a sociedade não tem piedade no momento de excluí-las dos padrões de beleza e objetificar seu corpo, reduzindo-as apenas a peitos e bundas fartos.


Foto: Reprodução
No filme Vênus Negra, Saartjie Baartman, uma mulher hotentote sul-africana vai para a Europa convencida por Caezar, seu chefe, de que lá será uma grande artista. Mas chegando lá Saartjie vê uma realidade bem diferente. O homem a colocou como protagonista de um espetáculo circense onde ela tinha que se apresentar com uma roupa muito justa que desenhava todo o seu corpo e fazer movimentos e sons como se fosse um animal selvagem. No espetáculo o homem tirava sarro de Saartjie e convidava o público a tocar em seu corpo. Devido aos seus traços físicos de hotentote, Saartjie era vista como uma mulher exótica e por isso era sempre tratada como se não fosse um ser humano e isso se estendia além dos palcos. Vivendo desta forma, a mulher vivia deprimida, bebendo e fumando muito. Com o tempo ela passou a se apresentar totalmente nua, com o seu corpo exposto e as pessoas tocando-a e achando engraçado e exótico, mesmo vendo-a chorar. Logo depois ela passou a se prostituir e afundou-se cada vez mais no estado depressivo em que se encontrava há muito tempo.

Saartjie era uma mulher que cantava e dançava lindamente, há uma cena no espetáculo em que ela desobedece o homem e canta para o público que ficou extasiado e logo depois começou a rir, como se achassem impossível uma mulher como aquela, considerada selvagem por eles mesmos, poder ter o talento do canto. Fazendo isso ela foi repreendida pelo patrão e disse uma das frases que considero mais importante no filme: ao invés de deixá-la cantar e dançar, ele preferia obrigá-la a mostrar a bunda. Caezar deu-lhe uma resposta que resume o pensamento da grande maioria da sociedade atual, mesmo que não admitam: ninguém se importa com o talento que ela tenha desde que exiba o corpo exótico para o povo branco em busca de diversão. E é exatamente a isso que as mulheres negras estão constantemente expostas, como se não servissem para nada além disso.

Ilustração de Saint-Hilaire e Cuvier, 1824 


Vênus Negra relata com cenas fortes a vida de uma mulher que sofreu racismo de uma forma violenta e escancarada, mas permitida naquele tempo, mesmo que a escravidão já fosse crime. Durante toda a sua vida ela foi tratada como anormal e virou estudo científico da época por causa de seus traços negros. Os cientistas mediram todas as partes do seu corpo e o violaram mesmo após a sua morte, medindo sua genitália e fazendo um molde do seu corpo. Até 2002 suas partes íntimas não tinham sido devolvidas para que ela pudesse ter um enterro digno, somente após o pedido de Nelson Mandela que foi devolvida a sua genitália e antes disso essa estava exposta junto ao cérebro de grandes filósofos, o que mostra como as mulheres negras sempre foram tratadas. Se para o homem seu cérebro era importante, para a mulher negra sua vida era reduzida apenas à sua parte íntima.

Foto: Reprodução


Para os europeus, tudo o que fugia do padrão determinado pelas teorias científicas da época era exótico. E Saartjie teve o seu corpo violado ainda mais por conta do interesse da ciência em comprovar que os negros eram naturalmente inferiores aos brancos. Seu cérebro foi medido e examinado para que os cientistas conseguissem comprovar a tese de que o negro era inferior. Saartjie não teve o seu corpo respeitado mesmo após a sua morte e nunca em vida foi tratada como um ser humano pela sociedade, apenas como um animal selvagem, incapaz de pensar, tomar decisões ou ter talentos.

O filme mostra de forma crua o racismo da época que ainda se faz presente nos tempos atuais. A atuação de Yahima Torres foi incrível, mesmo que dissesse pouquíssimas palavras no filme. Vendo-a atuar, o espectador consegue sentir a humilhação em que a personagem era exposta e se colocar no lugar de uma mulher tão sofrida. Foi uma obra difícil de digerir, principalmente para uma pessoa negra e, ainda mais, para uma mulher negra. São cenas fortes e que nos fazem relembrar de vários momentos onde o nosso corpo foi violado e coisificado, o quanto somos constantemente reduzidas ao nosso corpo e as nossas capacidades são ignoradas como se jamais tivéssemos sido humanas. O filme, de 2010, consegue trazer a tona toda a angústia de mulheres negras que sentiram na pele a hipersexualização desde que ainda tinham corpos infantis e pouco desenvolvidos.

Hoje as discussões sobre a sexualização do corpo negro devem ser cada vez mais intensas para que a sociedade entenda que somos além de corpos. Mas antes disso, devemos resgatar a autoestima das mulheres negras que desistiram, assim como Saartjie, por nunca terem sido tratadas como um ser humano. Saartjie Baartman se tornou um símbolo de resistência para o feminismo negro. É uma história indispensável para as mulheres negras, engajadas ou não no feminismo e movimento negro, para que entendamos de que forma isso afeta todos os aspectos das nossas vidas, tanto pessoais, românticos, profissionais e outros. 

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Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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