sexta-feira, 7 de abril de 2017

Resistência ancorada: o cenário Drag Queen em Salvador

*Por: Clara Gibson
Quem andar pela Carlos Gomes sem prestar muita atenção, não vai reparar numa portinha com grade que se passa perfeitamente como uma casa antiga comum, nem vai imaginar que ali, há quase 17 anos, funciona o bar transformista Âncora do Marujo. Apesar de pequeno, o lugar é cheio de histórias. Depois de atravessar a varanda, é possível encontrar uma parede abarrotada de fotos de diversas transformistas. Ali no Âncora drag queens de diversas gerações marcaram presença. Em um palco minúsculo, elas encantam e divertem a plateia com as suas performances, dublagens e improvisos.
“Em 2014 que eu fui ver, conhecer o Âncora do Marujo, lá na Carlos Gomes. Foi quando eu fui imaginar, pensar em me montar” lembra Petra Peron, que nas quartas se apresenta com o coletivo Haus of Gloom, grupo que conta com oito drags. Para Amanda Moreno, outra integrante do mesmo coletivo, o Âncora também representou um marco: “um amigo meu chegou aqui e quis fazer uma festa de montação no aniversário dele, e eu pedi pra esse meu amigo me montar pela primeira vez”.
Há alguns anos, poderiam ser encontradas na Carlos Gomes diversas casas de show. “Teve uma época que a Carlos Gomes tinha 10, 15 bares, todos com show de drags, travestis, transexuais, dessa arte, dessas misturas. Só que aí de seis, cinco anos pra cá teve um vácuo, não só de espaço fechado, mas também de novas drags surgindo”, conta Petra Peron. “Hoje tem muito menos (casas de show), tem gente que não tá aguentando, as coisas mudaram e muita gente não tem mais coragem”, explica Fernando dos Santos, dono do bar Âncora do Marujo, se referindo à violência que jazia no bairro, “mas ninguém mexe comigo aqui, é bem tranquilo”.
  
Um toque da “Mama Ru”
Apesar de o bar ter sido importante para os atores transformistas decidirem se montar, a maioria relata que o primeiro contato com a arte foi pelo programa RuPaul’s Drag Race, um reality show que existe desde 2009 e é apresentado pela drag queen americana RuPaul, também conhecida como Mama Ru. No programa, 14 participantes disputam pelo prêmio da próxima superestrela drag queen.
Antes, o programa de RuPaul era transmitido apenas por um canal que não existia no Brasil. A nova temporada agora é exibida pela VH1, que transmite o show online e ao vivo. Além disso, o serviço de streaming Netflix disponibiliza as temporadas de 1 a 7, aumentando o alcance de pessoas com acesso ao show. Sobre reality, Petra Peron comenta: “quanto mais acesso à arte drag, mais drags vão surgindo, mais gente consome”.

Haus of Gloom
Não há como falar da nova geração de drags em Salvador, sem citar a Haus of Gloom. “É um coletivo muito bacana porque nós, que somos novatas na cena, temos mais força e a gente consegue tanto se apoiar nesse começo de carreira, quanto também levar a cena pra lugares que os shows tradicionais ainda não conseguiam chegar”, disse Amanda Moreno sobre o grupo.
A Haus of Gloom surgiu no Talento Marujo (concurso), em 2015 e atualmente conta com 8 integrantes: Petra Peron, Aimée Lumière, Aleera Cox, Spadina Banks, Amanda Moreno, Mary Jane Beck, Gotham Waldorf, Danaê Wirapu’ru. “É muito difícil ser jovem artista, em qualquer área, não só drag, a arte drag tem mais dificuldade, evidentemente, por causa do espaço, mas ser um jovem artista é difícil e a gente tem dificuldade de trocar experiências, de acertar e não errar, manter o acerto e não repetir erros, e em coletivo a gente consegue uma coisa mais de troca de experiências, a gente se manter nessa e ir aos pouquinhos cada vez mais”, reflete Petra Peron.
Amanda Moreno ressalta a importância da Haus of Gloom para a disseminação da arte. “Têm muita gente mais jovem que gosta muito de drag pela TV, mas que não participa da cena daqui. E com a HoG (Haus of Gloom), como a gente tá mais perto da internet, mais perto das festas, das boates, a gente consegue trazer esse público e tentar inchar a cena daqui”, explica.
A Haus of Gloom se apresenta toda quarta feira, com pelo menos quatro integrantes, no Âncora do Marujo, a partir da meia noite. A entrada custa R$5,00. Quem quiser mais informações só curtir a página Haus of Gloom no Facebook e no Instagram.


Um pouco de religiosidade
Quem entra no  Âncora percebe logo o Marujo, entidade cultuada no candomblé da nação Angola e na Umbanda, em pé, rodeado de velas e cerveja, “ele é que toma conta do bar. Todo ano, no dia 13 de dezembro nós trazemos ele aqui pra fora (aponta pra o banco da entrada do bar) e regamos ele de cerveja. Fazemos o cortejo e elegemos a Garota Marujo”, conta Fernando, dono do bar. O bar também foi tema do documentário homônimo, produzido por Victor Nascimento. O documentário acompanhou o cortejo e o dia a dia das transformistas durante um ano.
O bar surgiu com esse nome pois o dono possuía uma barraca de praia com o nome Marujo, “depois de lá eu vim pra cá e veio com o nome, Marujo”, esclarece Fernando, enquanto exibe a imagem do Marujo dentro da casa.


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Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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