segunda-feira, 29 de maio de 2017

CORPOS OCUPADOS | A arte de Linn da Quebrada

A vida travesti retratada pela cantora Linn da Quebrada na canção “Mulher”

Foto: Reprodução/Melissa

Linn da Quebrada é uma artista do interior de São Paulo que cresceu num ambiente conservador e religioso, mas que hoje usa o funk para expressar a sua identidade de gênero e falar de suas vivências como mulher transsexual. 

É necessário pautar a arte de Linn da Quebrada, pois a cantora fala de temas pouco debatidos até mesmo entre o universo LGBT. Sabe-se que o Brasil é o país que mais mata pessoas transsexuais e travestis no mundo. Por conta do preconceito, essas pessoas são afastadas dos ambientes acadêmicos e até do mercado de trabalho, restando apenas a vida nas esquinas como último recurso. Segundo a ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transsexuais, 90% das travestis e transsexuais estão se prostituindo no Brasil. Esse quadro contribui para que essas pessoas continuem à margem da sociedade e se expondo a todo tipo de violência. 

É sobre essa realidade que Linn da Quebrada fala em sua música, intitulada “Mulher”. A vida nas ruas, com seus corpos explorados e se submetendo a todos os tipos de pessoas. Com um clipe intenso, não é apenas sobre este lado que a música fala. Analisando bem a letra é possível sentir a singela homenagem feita a essas mulheres que lutam todos os dias para se manterem vivas. Linn não fala apenas da realidade prostituída, mas põe em seus versos um pouco do “ser político” existente dentro de cada mulher trans ou cis-gênero. 

Foto: Reprodução

Os versos mais comentados pelo público das mídias sociais foi o seguinte: 

“Ela é diva da sarjeta, o seu corpo é uma ocupação / É favela, garagem, esgoto e pro seu desgosto / Está sempre em desconstrução”


É importante destacar os versos para lembrarmos que ser travesti já é um ato de resistência. Há uma certa urgência em trazer essas pautas para a realidade da maior parte dos brasileiros que consigamos alcançar, pois o Brasil sendo o país mais violento para transsexuais e travestis já denuncia uma falta de conscientização e uma exclusão social permitida pela própria sociedade e seus poderes. 

Aos poucos Linn da Quebrada está trazendo a tona suas urgências e seus debates tão importantes para nós. Para o site G1 ela diz: “Passei uma vida inteira ouvindo que 'ser viado não é uma coisa legal', que ser travesti é perigoso e vai trazer problemas. E eu não estou dizendo que é fácil, mas que é possível e lindo ser transviada - é uma possibilidade feliz”. Por isso, sua arte não apenas denuncia a realidade das pessoas LGBT’s no Brasil, mas também ajuda essas pessoas a se aceitarem, abraçarem a própria realidade e ocuparem ainda mais seus corpos se manifestando, existindo e lutando para ocupar espaços nunca antes pensados para essas pessoas. 

Foto: Reprodução

A multiartista traz para todos nós uma arte linda e necessária, tanto para apreciarmos quanto para aprendermos a ter empatia com uma realidade tão distante da nossa.

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Sobre o blog


Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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