sexta-feira, 12 de maio de 2017

Como a série Dear White People retrata o movimento negro na contemporaneidade

A CULTURA POP E O MOVIMENTO NEGRO NA CONTEMPORANEIDADE

Por Ashley Hawthorne
Foto: Reprodução/Netflix


Foi em 2015 que o movimento negro deu um salto no Brasil. Com o advento da internet, os jovens negros começaram a trocar experiências e se mobilizar através das mídias sociais. Hoje em dia é inegável o crescimento de movimentos sociais no Brasil e o movimento negro se mantém como um dos principais e mais presentes, junto com o movimento feminista. 

A partir daí, vários produtos da cultura pop aproveitaram para abordar o tema em suas produções. Como principais exemplos temos as cantoras Karol Conka, com o álbum “Batuk Freak” (2013), e Beyoncé (2016), com o “Lemonade”. No mundo cinematográfico, temos a gigante dos serviços de streaming, a Netflix, que anda investindo bastante em produções originais sobre a cultura do povo negro, como a sitcom “Chewing Gum” e as séries “The Get Down” e “Dear White People”. 

Trazendo o assunto para a Bahia, a Marcha do Empoderamento Crespo, criada em 2015, marca o fortalecimento do movimento negro entre os jovens soteropolitanos, usando a estética como forma de luta e reafirmação


Dear White People e as demandas do movimento negro 

Foto: Reprodução/Netflix

Em Abril deste ano a Netflix lançou a série original “Dear White People”, inspirada no filme homônimo de 2014. Antes mesmo de a série ter seu lançamento oficial já foi causado um burburinho nos Estados Unidos, onde os usuários da Netflix começaram a cancelar suas assinaturas e iniciar um boicote ao serviço de streaming por terem se ofendido com algumas críticas da série. 

A trama se passa numa universidade e retrata as ofensas diárias que os estudantes negros são obrigados a conviver. Uma das personagens principais, Sam White, tem um programa de rádio chamado Cara Gente Branca, onde denuncia os preconceitos que os estudantes negros sofrem. A série é uma comédia que satiriza práticas racistas e chama atenção para a vivência diária que estudantes negros têm nos Estados Unidos. Com fortes críticas ao uso de “black face”, a produção faz denúncias diretas ao racismo estrutural e consegue sintetizar tudo isso em 10 curtos episódios. 

No Brasil, o lançamento de “Dear White People” não causou a movimentação esperada. Uma das queixas do público negro é que a série não fez o mesmo sucesso que outras produções da Netflix e que o silêncio em torno disso é por conta das críticas que a série faz à sociedade e ao sistema racista, alimentado diariamente por diversas pessoas. Entretanto, o silêncio não impediu os negros de se pronunciarem. Fortemente aclamada pela crítica, a série foi bem recebida pelo público-alvo e trouxe à tona demandas do movimento negro que nunca tiveram tanta visibilidade assim. 

Uma das grandes questões trazidas pela série foi a violência policial contra pessoas negras, que é um problema trágico nos Estados Unidos e está crescendo no Brasil. O número de pessoas negras e brancas que são mortas pela polícia é algo que continua chocando a população. Segundo o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial, dados de 2014 mostram que pessoas negras de 12 a 29 anos são as principais vítimas da violência. Com essa realidade surgiu o movimento civil “Black Lives Matter” nos Estados Unidos, que reacendeu o debate sobre essa questão. 


Representatividade 

Foto: Reprodução/Netflix

Além do debate com relação a violência policial, outra grande questão da série é também a representatividade do povo negro. Representar o negro com fidelidade e sem cair em estereótipos é algo difícil de encontrar. A série “Dear White People” põe em evidência outros temas que também são pautas da luta do movimento. Questões como racismo estrutural, colorismo, relacionamento interracial, apropriação cultural, a solidão da mulher negra; esses e outros assuntos são abordados nos 10 episódios da série e todos estão ligados à militância negra na contemporaneidade. 

Com isso, muitas pessoas que participam do movimento se sentiram representadas e abraçaram a série, ajudando, inclusive, com a famosa divulgação “boca-a-boca”. Patrícia Souza (24 anos), estudante de jornalismo e trancista, destaca que, enquanto mulher negra, se sentiu contemplada com a abordagem da série, “reforçou tudo o que batemos sempre na mesma tecla, assuntos que estamos meio saturados de falar para a branquitude”, completa. 

A produção fala sobre diversas pautas do movimento negro e para o publicitário Jayder Roger (23 anos) o racismo estrutural é o mais urgente e ainda completa: “A série magistralmente fala sobre racismo, mostrando também a pluralidade negra. Coisa que normalmente não vemos sendo retratado na tv”, diz. 


Marcha do Empoderamento Crespo e o fortalecimento do movimento negro na Bahia

Foto: Amanda Pinto

A Marcha do Empoderamento Crespo marcou o fortalecimento do movimento negro contemporâneo na Bahia e até hoje incentiva jovens negros a participarem de forma ativa do movimento político-social. Surgida em 2015, a primeira edição da marcha levou cerca de 4 mil pessoas às ruas do centro de Salvador

Com duas edições realizadas, a marcha acontece sempre no mês de novembro, época com discussões mais intensas sobre questões raciais e quando comemora-se o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro.  

Foto: Amanda Pinto

A marcha é um marco que chama atenção para a importância da estética como forma de empoderar os jovens. O cabelo crespo, que há muito tempo foi rejeitadoo pela sociedade, hoje é símbolo de reafirmação da identidade negra. Para a estudante de direito, Kenia Morais (19 anos), a estética negra explicita a importância da resistência e do combate à opressão. Ela ainda completa: “devemos ter em mente que a estética negra é uma importante forma de manifestação político-social, ideológica e cultural”. 

Cabelos black bem armados, dreads, tranças box braids e muita, muita cor são algumas das principais características presentes na marcha. Esses jovens que se expressam através da arte, da música, da moda e estética foram denominados como Geração Tombamento, que usa a estética como forma de empoderamento e não aceita que delimitem os espaços onde o negro deve estar. Se aceitar e aceitar o cabelo crespo é uma forma de abraçar a própria identidade e continuar resistindo numa sociedade onde o padrão de beleza é o branco com cabelos lisos. Essa ressignificação da estética negra desconstrói toda uma ideia criada e perpetuada pela sociedade que diz que o crespo é feio, bagunçado e sujo; muito importante também para crianças negras que nunca se enxergaram na televisão e muito menos nas bonecas. 

Sobre isso, o depoimento do estudante de design, Thiago Dias, é fundamental para entendermos esses desdobramentos: 


"É de conhecimento universal de que a identidade negra foi extremamente danificada e retirada, acredito que ao decorrer do tempo o movimento negro teve a sua forma de lutar, de se expressar, na restauração e restruturação dessa identidade em cada geração, para que a seguinte viva em melhores condições, nós somos uma geração voltada para o imediato, penso que a busca pela identidade, a aceitação e a autoafirmaçao de ser negro foi o primeiro passo para restruturação de uma visão global e que estamos no patamar de ocupação de espaços. Vejo de forma plural, de que o movimento vem crescendo e desmistificando os estigmas de miserabilidade impostos em nós pretos, temos que ocupar sim, esteticamente, intelectualmente, até mesmo não fazendo nada, apenas vivendo, porque como já disse, ser negro já é um ato de militância."

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Sobre o blog


Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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