quinta-feira, 4 de maio de 2017

RESENHA | O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

Foto: Asylum to Readers
Chegou a hora de resenhar um dos livros que eu sempre quis ler, O Retrato de Dorian Gray. Não precisa nem estar muito presente no universo literário para conhecer esse clássico da literatura mundial. O livro de Oscar Wilde já gerou muitas polêmicas na época em que foi lançado e hoje ele é considerado a obra prima do autor. A história já foi explorada de infinitas formas, ganhando outras edições, adaptações cinematográficas e, inclusive, o mundo televisivo trouxe Dorian Gray como personagens de séries, como em Penny Dreadful (Showtime). 

Dorian Gray é um jovem belíssimo que tem seu retrato pintado por Basil Hallward. O pintor, que apresenta Dorian ao lorde Henry Wotton, que o faz tomar consciência de sua beleza e do valor de sua juventude, e o inicia em um mundo de vícios e desregramento. Apaixonado pela própria imagem e influenciado pelas palavras de lorde Henry, Dorian deseja permanecer eternamente belo, como no retrato. Misteriosamente, seu desejo é atendido. Conserva sua imagem jovem e inocente, enquanto o retrato muda, refletindo seu estado real de degeneração.

Dorian Gray é um rapaz simples e humilde que começa a se ingressar na alta sociedade inglesa. Ele conhece o pintor Basil Hallward e imediatamente o artista se interessa pela sua beleza incomum, usando-o de inspiração para a criação de um quadro. Em certo momento Basil fala sobre Dorian com seu amigo, o Lorde Henry Wotton, e ele logo desperta um interesse em conhecer o rapaz. No momento em que o quadro é finalizado, a obra de arte desperta um sentimento incomum em Dorian: ele gostaria de se manter belo e jovem eternamente

Ao longo da história, Dorian Gray se aproxima bastante de Henry também e o lorde acaba se tornando uma "má" influência para ele. O personagem carrega uma personalidade bastante peculiar, é de longe um dos personagens mais memoráveis e bem trabalhados do livro e possui os melhores diálogos, com um humor totalmente ácido e irônico. Por outro lado, Basil é totalmente gentil, boa pessoa, porém muito obcecado pela beleza de Dorian Gray. Em uma das críticas que li, dizia que Henry e Basil representam a dualidade da personalidade do Dorian Gray. Concordo totalmente com essa posição, o personagem é tão bem construído que o leitor consegue perceber essa característica e comparar com a antiga personalidade ingênua que ele transparecia. Então, a partir do momento em que o quadro fica pronto e Dorian vai conhecendo os pecados do mundo, o quadro passa a se tornar uma caricatura deturpada do homem, antes belo. 

O que mais me chamou atenção no livro foi a escrita de Oscar Wilde que é totalmente diferente de tudo o que já li. Seu estilo é único e se torna notável ao longo da história. O autor traz elementos na história que se assemelham aos antigos contos góticos vitorianos, com aquele ar mais obscuro e nebuloso. A história traz uma importante reflexão que é o julgamento pelas aparências. Ninguém jamais imagina que um rapaz tão belo pode ter a alma tão impura. 

Outro ponto interessante que Oscar Wilde traz em O Retrato de Dorian Gray é a presença de características homossexuais na história. Podemos perceber que Basil Hallward possui uma obsessão incomum pela beleza de Dorian e ele se apaixona totalmente, é um sentimento realmente obsessivo. Embora sutil nos dias de hoje, quando o livro foi lançado isso se tornou um choque para a sociedade na época. Inclusive o autor foi preso e essa questão foi usada contra ele em seu julgamento. Até por isso que o livro ganhou outras versões com censura, pois na época a homossexualidade era crime. 

O Retrato de Dorian Gray é um clássico da literatura gótica que evidencia a hipocrisia da sociedade, algo bem atemporal, inclusive, e traz um horror mais sofisticado. O terror presente na história é algo bem sutil e até pessoal. Oscar Wilde escreveu com paixão e inteligência, retratando o estado de deteriorização da alma humana

Quote favorito do livro: 

"O mundo clama contra nós dois, mas você continua a merecer-lhe adoração. Personifica o tipo almejado e temido pela época. Folgo de que não tenha feito nada na sua vida; de saber que não esculpiu uma estátua, não pintou um quadro, não produziu nenhuma obra sua. A sua arte foi a vida. Você a musicou e os seus dias são os seus sonetos" - Lorde Henry Wotton, O Retrato de Dorian Gray

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Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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