quarta-feira, 7 de junho de 2017

A ascensão do feminismo e a venda do empoderamento

Empoderamento vende? 

Foto: Divulgação

O capitalismo é o sistema que diariamente contribui para a opressão da mulher, principalmente da mulher negra. Mas o que vemos hoje é o capitalismo andando, cada vez mais, junto aos movimentos de gênero e raça. Afinal, as mudanças que estamos vendo nas estratégias de marketing de várias marcas não são a toa. Marcas como Avon, O Boticário, séries como Game of Thrones e até mesmo a própria Rede Globo estão trazendo cada vez mais a palavra “empoderamento” para o seu dia-a-dia e, novamente, a pergunta que faço é: empoderamento vende

O que acontece é que agora a internet é o principal meio de atingir o público, principalmente jovem. De acordo com pesquisas do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, metade dos brasileiros estão conectados à internet. Foi através da própria internet que o feminismo se popularizou entre as mulheres mais jovens. Até porque, o movimento nunca foi pautado pela mídia como está sendo hoje. Precisamos entender que não existe boa vontade quando o assunto é mídia e feminismo. As empresas estão interessadas, primeiramente, em lucro, em vender, em aumentar o seu público, e para isso precisam incluir um grupo de pessoas que tem grande poder de alcance. 

A estética

Foto: Reprodução/Tumblr

O ideal de corpo feminino sempre foi moldado pela mídia ao longo dos anos. Se alguém não se encaixava naquele padrão criado… descartada. Não tem peitão, nem bundão, nem cabelos lisos e longos, nem pele clara e traços finos? Descartada. 

Era assim que eram tratadas as mulheres negras, gordas, lésbicas e afins. Quem não estivesse no padrão socialmente aceito era descartada. A quantidade de mulheres com baixa autoestima, problemas com o corpo e fugindo cada vez mais para as cirurgias plásticas, clareamentos de pele, alisamentos no cabelo, era (e ainda é) gritante. O tempo inteiro mulheres são pressionadas para ter o corpo e o cabelo ideal, para modificar se não tiver bom o suficiente, até que… aprendemos a dizer “CHEGA!”. E isso foi sim por conta da ascensão do feminismo. E foi através da internet também. 


Indústria Cultural 

Foto: Reprodução/Avon

Em um vídeo do canal Afros e Afins, Nátaly Neri fala justamente sobre esse assunto e aborda dois importantes autores, Adorno e Horkheimer. Eles falam sobre a indústria cultural e como tudo o que não é interessante para essa indústria é descartado. Porém, quando percebem que algo está ganhando força, rapidamente se apropria daquilo, tornando-o um produto. É justamente o que aconteceu com o feminismo. A partir do momento em que não era importante para a indústria cultural o movimento era sufocado, ignorado, e por isso muitas mulheres não o conheciam, pois não estava na mídia. Entretanto, com o crescimento da internet, isso não pôde ser tão controlado e o movimento feminista acabou aparecendo e chegando ao conhecimento das mulheres. Por isso as marcas viram uma oportunidade de trazer isso para seus produtos, seu conceito e suas ações promocionais. 

Ver grandes marcas de cosméticos, redes de televisão, programas e afins falando sobre empoderamento da mulher é algo bom? Sim. É bom que mais mulheres conheçam sobre o feminismo, se empoderem e percebam que tem voz. Mas ainda assim devemos ter consciência de que o capitalismo contribui para várias opressões sofridas pelas mulheres, como a hiperssexualização, o embranquecimento e por aí vai. 

E a representatividade? 

Ilustração: Reprodução/Autor desconhecido

Ver o empoderamento da mulher sendo pautado pelas grandes marcas, como eu disse anteriormente, não é algo a toa. A grande questão do feminismo ter se tornado um produto da indústria cultural é porque ainda assim é apresentado de uma forma totalmente distorcida. É sempre a mulher branca, o “girl power”, o “meu corpo, minhas regras” e apenas isso é colocado nos comerciais de televisão e nas capas de revista. E é por isso que não é algo tão bom assim e muito menos representativo. 

Quando falam de empoderamento e esquecem da mulher negra, da mulher gorda, da mulher trans etc, não estão falando do real empoderamento. E enquanto as marcas não se preocuparem em nos representar como seres plurais, ainda estará sendo algo unicamente movido pelo capital e sem a mínima contribuição para o empoderamento feminino.

Por isso, por mais que a Globo fale sobre feminismo no Amor e Sexo e que a Playboy pare de pagar as mulheres para posarem nuas, não estamos falando sobre responsabilidade social e consciência, pois a Globo ainda deixa entrar no ar uma novela que coloca uma personagem mulher que faz falsa denúncia de estupro e a Playboy ainda lucra em cima de corpos femininos. Percebem a inversão? Não existe de fato uma contribuição. O empoderamento não está sendo pautado de forma realista, está sendo vendido como um produto e isso gera público e lucro. 

Deixo abaixo um importante vídeo feito pela Nátaly Neri, do canal Afros e Afins, que fala justamente sobre isso:

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Sobre o blog


Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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