quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Legalizar a prostituição é abrir espaço para a indústria sexual se expandir


Texto: Ashley Hawthorne 

Há tempos que as discussões feministas passaram a se atentar mais à questão da legalização da prostituição. Há algumas correntes que defendem a libertação usando todo aquele argumento liberal de liberdade sexual e poder de escolha. Argumentos que, para mim, parecem vazios e individualistas. Partindo do pressuposto de que a grande parte das mulheres que hoje vivem em situação de prostituição não desejam estar ali e só o fazem por necessidade, o ato sexual é, então, forçado, contra a vontade. Ou seja, um estupro. Há quem interprete de forma diferente. 

Essa prática existe desde os primórdios e sempre foi algo marginalizado. As mulheres que viviam na prostituição estavam sempre à margem e eram excluídas de todos os espaços, além de serem hostilizadas. 

Hoje em dia - também com o crescimento da cultura da pornografia -, a prostituição é vista por alguns como algo “cool” e libertário. Por isso a sua legalização é muito discutida e bem vista por alguns grupos. Entretanto devemos lembrar de toda a cultura que objetifica o corpo feminino e o quanto o tráfico sexual de mulheres ainda é um problema gigantesco. Dados de 2009 do Escritório das Nações Unidas Sobre Drogas e Crime (UNODC) revelou que representam 66% das vítimas são mulheres adultas, 13% são meninas, enquanto 12% são homens e 9%, meninos. 

Legalizar a prostituição é permitir que nossos corpos sejam (ainda mais) monetizados. Além do fato de que a legalização não torna mais digna a vida dura das mulheres que vivem na prostituição, só abre margem para a indústria sexual explorá-las ainda mais. É válido citar que no Brasil, em 2009, o deputado Jean Wyllys (PSOL) apresentou um projeto de lei à câmara com a proposta de regulamentar a prostituição, garantindo mais direitos e proteção a essas mulheres. Entretanto, não é possível uma desmarginalização dessa prática quando, em contrapartida, isso estaria reforçando a exploração sexual e expandindo a indústria do sexo. 

Não há, também, como usar o discurso libertário de que a mulher terá os direitos de seu próprio corpo. Se hoje já são coagidas por cafetões, donos de bares e afins, com a legalização da prática isso seria facilmente intensificado e uma indústria que vende o corpo feminino estaria, não surgindo, mas emergindo de forma mais fácil. 

Defender a regulamentação da prostituição não é automaticamente defender as prostitutas, é abrir espaço para uma indústria que escraviza as mulheres. E o discurso contra a legalização também não quer dizer que estejamos contra essas mulheres. É possível sim defender as prostitutas e ser contra a legalização da prostituição. Não precisamos de mais leis que sirvam para “tampar” os buracos da nossa sociedade e sim de medidas que tirem essas mulheres da rua e leve-as para outros espaços onde possam sobreviver. Afinal, com o estado regulamentando a prostituição não é garantia que essas mulheres não sejam agredidas. A prostituição em si já é uma violência. 

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Conteúdo sobre questões raciais e de gênero de forma acessível e cor-de-rosa. O blog aborda assuntos como moda e estética negra como forma de expressão, além de questões ligadas ao movimento negro e feminista na contemporaneidade.

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