A favela na maior festa de rua do mundo

Foto: Lúcio Távora/ Ag. A Tarde.

Por Itana Lins 

Inicio o texto deixando bem claro que aqui não estou expondo nenhum posicionamento político acerca do Prefeito de Salvador ou do Governo do Estado, estou fazendo análises necessárias sobre o “Panis at Circenses” disponibilizado por eles na cidade, especialmente na maior festa do mundo, o Carnaval Soteropolitano.

Não necessariamente ser soteropolitano significa ser folião, morar em uma cidade carnavalesca não significa apreciar o próprio Carnaval e isso é o segundo entendimento que deixo aqui. Porém para mim e muitos outros, a emoção de estar na rua, à comemoração da música, o ar de festa constante é indescritível, entre outras milhões de sensações, é claro. São os dois lados da moeda para a população.

Depois de retificar certas coisas, é hora de esquecer o pão e pensar no circo. ACM Neto, o prefeito desta cidade e o Governo do Estado em alguns anos conseguiram mudar algumas realidades do Carnaval, por exemplo, diminuindo a concentração da Barra, símbolo da elitização de Salvador e da festa, e ampliando a quantidade de circuitos, além de valorizar o circuito Osmar no centro da cidade, retomando para ele diversos artistas e o mais importante de forma acessível à grande massa, em trios sem cordas.

Mesmo com intenções políticas, a popularização do Carnaval abriu portas para as comunidades da cidade e isso é uma afronta à elitização de anos atrás ainda presente, mas com menos intensidade na festa. Genialmente, o retrato desse novo período da folia, da abertura para a população de classes mais baixas, está na chamada Pipoca do Kannário, para aqueles que não conhecem, Igor Kannário é um cantor de pagode baiano muito conhecido por cantar a realidade das favelas e por suas polêmicas, este é vereador, se intitula o Príncipe do Guetto e é o artista que puxa o bloco já citado. A cada ano, ele quebra recordes e já é a maior pipoca do mundo desde 2017 com cerca de três milhões de foliões acompanhando o trio que sai na segunda de Carnaval no circuito Osmar no Campo Grande. A favela se sente representada e comparece em peso mostrando que o empoderamento das classes mais baixas ganha cada vez mais destaque.

Estamos bem longe de um Carnaval mais democrático, totalmente popular, mas já trilhamos um grande e bom caminho, bandas como Harmonia do Samba que saia todos os dias em blocos pagos, hoje também puxa trios sem cordas, assim como artistas como Léo Santana e Daniela Mercury fazem parte dessa mudança. Também é necessário observar o espaço conquistado por bandas como Lá Fúria que ganhou espaço e patrocínio governamental para sair, trazendo ainda mais as camadas mais populares para os circuitos.

Apesar de ser apenas uma festa de rua, mesmo sendo a maior do mundo, a crescente popularização da festa traz a tona escancaradamente para a elite que as comunidades também merecem e tem possibilidade de um melhor acesso a momentos antes dominados por eles, o empoderamento da favela cresce cada dia mais e o Carnaval é uma pequena demonstração que a população de classes mais baixas mesmo sem o conhecimento em sua maioria está pronta para invadir e tomar o seu espaço de direito.

Itana Lins é colunista do Ashismos

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