Sobre meu corpo



Por Danielle Souza

Vasculhando algumas pastas antigas eu encontrei um portfólio feito por mim no 8º ano. Tinha um questionário e dentre as perguntas havia uma assim: “Se você pudesse mudar algo em você, o que mudaria?” Talvez fosse uma pergunta muito ferrenha para adolescentes que provavelmente eram inseguras com seus corpos, afinal, estávamos em uma fase de transição. Eu devia ter
uns 13 anos. 

Mesmo assim, eu respondi: “Acho que eu mudaria meu cabelo, meus pés e o meu corpo.” Ora, sem essas partes o que sobraria de mim? 

Naquela época eu não tinha pessoas negras para me inspirarem, não tinha atrizes que me representassem, blogueiras que me fizessem enxergar o quanto eu era linda com todas as minhas características e que eu não precisava mudá-las. Que me afirmassem que eu não precisava alisar os cabelos, não precisava odiar meus pés tamanho 40, não precisava querer parecer mais clara ou passar tortuosos minutos apertando o nariz para ver se o afinava. Até criarmos essa consciência leva um certo tempo. São anos alisando o cabelo, relaxando a raiz, ouvindo piadinhas sobre os nossos traços, que deviam ser amados mas que são odiados cada vez mais. São anos em que
sentimos vontade de nascer de novo, com uma nova forma, um novo cabelo, um novo corpo. Foram anos que passaram para mim, para você, mas que ainda vão passar para minha prima, para minha irmã mais nova e para milhares de meninas negras que irão descobrir (e redescobrir) a importância da
sua identidade, herança e ancestralidade.

Malcolm X, em seu discurso no ano de 1962, já trazia a estética negra para o debate popular ao perguntar “Quem te ensinou a odiar a si mesmo?”. Em meio à segregação estadunidense, o ativista negro já afirmava que a pessoa mais desrespeitada, desprotegida e negligenciada dos EUA era a mulher negra. Hoje, quase 56 anos depois, ainda somos nós que compomos a base da pirâmide social e, dentre outros fatores, temos a menor autoestima por não nos encontrarmos no padrão “adequado”, produzido, afirmado e propagado pela mídia. Mas aí já é assunto para um próximo texto... 

“Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo? Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele, a ponto de você se clarear para parecer como um homem branco? Quem te ensinou a odiar o formato de seu nariz e deus lábios? Quem te ensinou a se odiar da cabeça às solas de seus pés? Quem te ensinou a odiar pessoas como você? Quem te ensinou a odiar a raça a qual pertence, a ponto de vocês não quererem estar próximos uns dos outros?”

(Trecho do discurso de Malcolm X, 1962).

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