Vídeo de criança sofrendo racismo evidencia o que já sabemos: racismo se aprende!


Essa semana começou a circular um vídeo nas redes sociais onde uma criança negra sofre racismo em um parquinho na Europa. Nas imagens gravadas de longe, por algum espectador na janela de uma casa ou prédio, é possível ver uma criança negra chegando com sua mãe no parque e tentando brincar em um escorregador, mas é impedida de subir por várias crianças brancas, que se recusam a liberar o espaço para que o garoto pudesse brincar também. A mãe, vendo a situação, rapidamente direciona a criança para outro brinquedo, que ela mesma balança. Não conformadas, as crianças brancas vão até o garoto e, aparentemente, dizem algumas palavras, além de tocarem-no de forma bastante agressiva. E então, novamente, a mãe direciona o seu filho para outro lugar, desta vez indo embora de forma totalmente humilhada.

É impossível assistir às imagens sem sentir um pouco de dor no coração, pois, com certeza, grande parte das pessoas negras já se viram nesta situação de rejeição em algum momento na infância. Ao que parece, a mãe já tinha algum tipo de consciência e já sabia que aquilo se tratava de racismo e não apenas birra ou briga entre crianças. Em um parque movimentado, com as crianças acompanhadas pelas suas mães brancas, ninguém foi capaz de intervir, nenhuma mãe saiu do lugar para repreender o seu filho pelas atitudes erradas. O que nos leva à grande questão deste post: racismo se aprende ou não? Foi lendo um relato na Revista Fórum sobre racismo na infância que comecei a me questionar sobre isso. O relato foi de uma professora que testemunhou uma senhora indignada com a professora e a escola porque o seu neto foi par de uma menina negra na festinha de São João. Com isso, voltamos àquela velha questão bastante discutida por sociólogos: as pessoas nascem boas e são moldadas pela sociedade ou o contrário?

Seja lá qual for a resposta para esta pergunta, uma coisa é incontestável: crianças absorvem o que estão à sua volta. Seja através de discurso produzido pela família branca ou até mesmo na relação desta criança com outros espaços sociais como escola ou até mesmo com a falta de diversidade racial na mídia, nos brinquedos disponíveis e na indústria cultural num geral, essa criança vai aprender de alguma forma a reproduzir pensamentos e atitudes racistas. Então, na minha opinião, sim, racismo se aprende.

As consequências de tudo isso são os estigmas que a população negra cresce aprendendo a conviver, como a falta de autoestima, dificuldade em se relacionar, rejeição à própria imagem e corpo e, é claro, a necessidade constante de se embranquecer. Unindo essa rejeição social à falta de representatividade nos espaços, crescemos tentando a todo custo nos encaixar em um padrão que nos rejeita mas nos obriga a recorrer à mutilações como alisamentos capilares, cirurgias plásticas para "afinar" os traços e outras opções não tão tecnológicas assim, como se banhar em água sanitária para clarear a pele.

Por isso fico muito feliz quando vejo que algumas crianças negras de hoje crescem com referências negras e representatividade nos meios. Aos poucos vamos diminuindo a quantidade de negros que crescem cheios de traumas da infância relacionados ao racismo. E, de fato, crianças brancas percebem que há uma diferença entre elas e crianças que são negras, mas não acredito que elas são capazes de fazer juízo de valor. Aquela velha história de que nascemos como um papel em branco, né. A obrigação dos pais é justamente essa: mostrar aos seus filhos que no mundo existem pessoas diferentes e nem por isso há algo de errado.


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