Sua militância chega nas periferias?

De que vale seu lattes e likes se os seus não têm acesso às informações coletadas por você? 


Por Brenda Cruz 

As discussões sobre o quanto a internet e as redes sociais nos separam ou nos aproximam de tempos em tempos voltam à tona. Seja no nosso dia a dia ou até mesmo dentro dos espaços que ela mesma nos disponibiliza. A era das redes sociais como potência para as comunicações e conexões movimentam todos os âmbitos, sejam eles sociais, econômicos ou até mesmo políticos. 

O poder por trás da internet e das redes sociais é, de fato, tão influenciador nas nossas vidas que seus filtros e fragmentações acabam saindo do “on” para o “off” nos tornando reféns de uma “bolha social”. Filtros esses que nos levam a excluir do nosso “campo de visão” e social, conteúdos, movimentações ou até mesmo pessoas que não façam parte ou se encaixem dentro dessa bolha criada por nós mesmos.

Na militância atual ou “pós-modernista” críticas como essa são cada vez mais frequentes, levantando questionamentos como “Sua militância chega dentro das periferias?” “Seu discurso é de fato, inclusivo?” “Onde ou para que você usa o conhecimento que adquiriu na academia?”, nos fazendo refletir se estamos formando círculos onde nossos discursos são somente repetidos entre nós. 

Se atentar a questões que são essenciais para a construção e manutenção de uma comunidade engajada, potente e consciente, fazer do seu conhecimento acadêmico acessível para todas e todos os que não tiveram ou terão acesso às universidades e ter noção do compromisso social que nós temos ao adentrar esses espaços, é de extrema importância e traz um enorme impacto para toda a estrutura social.

Eu quero falar de modo que a minha mãe entenda o que eu tô falando, que minhas tias entendam o que eu tô falando.  –  Djamila Ribeiro

Por vezes, nós mesmos não percebemos o quão estamos “mantendo” essa bolha. Em um artigo meu, intitulado “Afetividade e autoestima da mulher negra” tive uma experiência que modificou minha conduta em relação ao assunto em questão. Ao mostrar o texto para minha mãe, mulher preta, periférica e que só teve o ensino médio concluído, ouvi um “Não entendi nada do que você escreveu. Não sei o que as palavras significam, mas estou muito orgulhosa de você.” Já deve imaginar como o coração ficou, não é? Logo após esse episódio meu olhar passou a se direcionar com maior atenção para essas questões e o cuidado se tornou muito maior.

A filósofa Djamila Ribeiro em entrevista ao Estadão, falou sobre ser acadêmica e exaltou o compromisso social ao qual devemos nos atentar. “É importante sair da bolha da academia porque ela é um espaço de privilégios no Brasil. Eu quero falar de modo que a minha mãe entenda o que eu tô falando, que minhas tias entendam o que eu tô falando. E isso não significa que elas não entendem porque elas não têm capacidade. Elas não tiveram oportunidade de dominar uma linguagem que eu tive oportunidade de dominar. A gente não pode esquecer o compromisso com a sociedade. As feministas negras têm um compromisso muito grande com a linguagem. A Angela Davis é doutora em Sorbonne, mas se você pegar um livro dela, a linguagem é extremamente acessível. A academia critica os acadêmicos que fazem esse esforço de serem acessíveis. Eu sou acadêmica, mas consigo transitar em vários lugares. Ao mesmo tempo que estou na academia eu falo num canal de televisão aberta, vou à periferia participar de formação, vou a palestra e fico conversando com CEOs de grandes empresas. É importante saber transitar em todos os espaços e não criar um nicho.”, contou.

O que fica para todas e todos nós é o levantar dessas questões sempre, sejam em nossas ações, nos espaços que ocupamos, dentro do nosso círculo social. Ou se posicionar em relação às ações, posicionamentos e falas daqueles que nos circulam. 

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