MANA DO RAP | Hiran fala sobre referências e novo trabalho

Foto: Yvan Barney

Por Axel Adrian 

Um jovem alto, pacato me recebeu no alto do prédio onde passa a maior parte do tempo atualmente em Salvador. Atento ao celular, marcando um vôo para São Paulo, Hiran é daqueles jovens tímidos mas talentosos que atraem o sucesso. Sua chegada na cena musical de Salvador também foi tímida e em pouco tempo alcançou grandes proporções, como por exemplo tocar ao lado do Baiana System no Navio Pirata arrastando milhares de pessoas no Carnaval de Salvador e sob os olhares atentos de ninguém menos que Caetano Veloso.

Começou a se interessar por música aos 9 anos e desde então ingressou em várias formas de fazer música, inclusive em barzinhos. Eu conheci o Hiran há mais de um ano e seu trampo na época era com a banda de pop rock/indie Limbo ao lado do seu parceiro Colibri, curioso como sempre, achei registros deles no youtube e acompanhei um pouco de seu ingresso no Rap com singles e vídeos bem elaborados. Hoje ele conseguiu se destacar na cena nacional justamente por essa flexibilidade vocal de quem tem experiência em vários estilos e pela forma como ele e a produção condensaram vários estilos musicais, negros diga-se de passagem, dentro da sua vertente principal do Rap.

Acompanhem a seguir nosso bate-papo cabeça sobre tudo que rola ao redor de Hiran:

Axel Adrian: Você acha que o rap tem aumentado ultimamente de público porque há uma necessidade da sociedade jovem de exorcizar sentimentos e problemáticas sociais atuais?
Hiran: Eu acredito que o Rap e a música alternativa no geral segura uma onda que o mainstream não consegue quando as coisas ficam mais tensas. Até porquê as pessoas precisam de falar de seus problemas e escutar quem fale deles também. Tem a necessidade de se enxergar naquilo.

AA: Como anda a logística do Hiran fazendo show em São Paulo, saindo de Alagoinhas?
H: Estou sediado em Salvador, mas sempre volto para Alagoinhas ver meus pais. Tô numa rotina de viagens intensas, vai piorar agora mas tá sendo legal.

AA: Essa necessidade  de visibilidade inclue o crescimento de gays, trans, negros e mulheres na arte . Como o rap baiano tem lidado com isso?
H: Total. Apesar de haver expoentes nacionais em alguns desses núcleos de minorias como gays por exemplo, a Bahia é carente. Existem alguns poucos mas que não conseguem atingir um patamar, é necessário dar a cara a tapa independente. Partindo desse ponto, eu tinha como objetivo no meu álbum fazer um ensaio sobre todas as coisas que eu tinha pra dizer  e que eu observava ao meu redor a partir do meu lugar de fala enquanto gay e negro e fazendo rap num ambiente machista percorrendo nas relações com minha família, meus amores e com o que eu acho que é a solução para o bagulho.

AA: Como está a repercussão do seu álbum?
H: Quando a gente faz algo comercial a gente tem medo da opinião mas no geral tem sido positivo. As vezes não sabemos onde a nossa música vai parar. Recebi algumas mensagens. Um dia recebi de uma criança da minha cidade e me senti realizado. Tudo faz sentido.

AA: Quais as suas referencias musicais?
H: Eu ouço muita coisa, mas busco sempre a originalidade. Ouço bastante música country como Chris Stapleton e R&B. Sou apaixonado pelas Divas negras do pop como Beyoncé e Rihanna mas também meus parceiros mais próximos me influenciam muito, como Rico Dalasam, Vandal, Galf, que são fontes de onde eu bebo.

AA: Na faixa Muda do seu álbum você diz fazer dinheiro fora do sistema. Isso é possível?
H: É. Só que é difícil. Sistema nesse caso são as rotinas impostas. Já tentei trabalhar em empregos e tals mas só sei fazer música mesmo. Eu escrevi essa música quando estava em Salvador na correria pra me sustentar, pra tocar, quando vi uma matéria sobre a ração paulista e achei muito louco então resolvi criar um deboche mas sério e angustiado. Nessa correria de tentar sobreviver com empregos mas naquele momento eu tive convicção do que era que eu teria que fazer.

AA: No seu álbum existem outros estilos presentes, há  alguma expectativa ou cobrança do rap em cima de você e do que você possa criar?
H: Em cima do meu trabalho talvez, mas não na expectativa que é criada em mim não. Eu não me limito. Eu tento deixar fluir. O rap também não está limitado a uma métrica, uma forma de rima, uma estética apenas.

AA: Você participou de algumas bandas. Como foi esse processo de imersão no Rap?
H: Participei da banda O Nó, da Banda Limbo... mas quando fui pro Rap surpreendi muita gente, minha família e amigos que sabiam que eu rimava mas não que eu ia me jogar de cabeça. O que eu acho importante de dar a cara a tapa contra várias paradas mesmo tendo sido um processo pessoal. Quando você dá a cara a tapa é de uma responsabilidade política grande.

 AA: Você acha que seu trabalho pode ser mais bem aceito por ser um negro mais claro, ou um gay menos afeminado, para o sistema?
H: Isso é uma realidade. Mas eu uso a plataforma que eu tenho disponível independente dessa realidade, que também envolve outros pormenores, como os contatos que tem, os lugares que frequenta e todo hype. Eu faço o que eu posso para ser útil para os meus, porque quem sou eu?!

AA: Quais seus novos projetos em vista?
H: Ainda estou digerindo e curtindo do álbum Tem Mana No Rap. Até porque cada vez que interpreto uma música ela me vem de uma forma diferente, depois da turnê que está sendo organizada talvez eu me dê por satisfeito.



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