Conceição Evaristo Na ABL pela democratização da literatura


Foto: Folha de S. Paulo

No início da semana fui no evento de lançamento da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira) 2018 e fiquei muito feliz ao saber que Conceição Evaristo seria a grande homenageada da 8ª edição do evento que acontece anualmente no mês de outubro em Cachoeira-BA.

Conceição Evaristo é uma escritora, poetisa e romancista negra, nascida na periferia de Belo Horizonte e que vem de uma família pobre. É preciso demarcar esses locais de fala para evidenciar uma trajetória que não foi fácil e, inclusive, foi (e ainda é) marcada pela resistência. A autora teve que conciliar o curso normal com o trabalho como empregada doméstica e foi quando mudou-se para o Rio de Janeiro que passou em um concurso e iniciou os estudos em Letras, na UFRJ.

Hoje, Conceição Evaristo é mestra em Literatura Brasileira e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Ela é autora dos contos Insubmissas Lágrimas de Mulheres e Olhos D’Água, além do romance Ponciá Vivêncio e outros. Em 2015 ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura e, este ano, será a autora homenageada na Flica.

Me senti especialmente tocada ao saber da homenagem, pois a literatura esteve presente na minha vida desde a pré-adolescência, como leitora e como escritora. Durante a minha vida já li mais de duzentos livros e nunca me senti representada em nenhum deles. Inclusive, um fato curioso é que há alguns tempos atrás comecei a ler o livro “No Seu Pescoço”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, e só quando terminei o primeiro conto que percebi que estava lendo, imaginando e interpretando os personagens como brancos, mesmo estando claro que os personagens tinham origem africana. Foi a partir de então que comecei a questionar a minha trajetória na literatura como consumidora e até mesmo como aspirante a escritora. Totalmente marcada pela colonização e embranquecimento, pois mesmo os personagens das histórias que eu escrevia na adolescência eram brancos. Foi então que comecei a conhecer autoras e autores negros.

É extremamente necessário para a população negra ter representações como Conceição Evaristo na literatura brasileira, pois é uma forma de trazer para nós o protagonismo e lutar contra a colonização de nossos pensamentos e imaginações.

A importância de enegrecer a Flica é a mesma de enegrecer a Academia [Brasileira de Letras] e todos os espaços sociais e culturais. São espaços nossos de pertença. Qualquer espaço que a gente conquiste, nada é dado, nada é privilégio. Nós estamos na base da construção dessa nação, então esses espaços são nossos em todos os sentidos”, diz Conceição em entrevista ao Ashismos.

E vale lembrar que essa referência não vem só pelo protagonismo e sim pela necessidade de mostrar para jovens negros que há possibilidades e que todos nós temos uma chance, mesmo que mínima, de ocupar estes espaços (e devemos). Conceição Evaristo é uma mulher que nasceu e cresceu na periferia, lutou muito para conseguir alcançar a academia e até hoje relata que não foi a mídia que a fez e sim aos irmãos e irmãs do Movimento Negro, que foram os primeiros a ler e valorizar seus textos. Portanto, o reconhecimento que tem hoje é mínimo em comparação ao que deveria ter não só para ela, mas para todas as mulheres negras que ocupam o campo da literatura.

"Eu não nasci rodeada de livros, nasci rodeada de palavras" - Conceição Evaristo


A homenagem na Flica é um passo em direção a uma democratização da leitura e da escrita. A autora faz questão de lembrar que as classes populares devem se apropriar da leitura e da escrita por direito. “Livro e leitura não é para ser de pertença das classes hegemônicas, tem também que ser de pertença das classes populares”, diz Conceição. Ela revela que faz questão de visitar escolas públicas para que crianças e jovens percebam que também podem ocupar esses espaços, pois existe um romantismo com relação ao escrito como se todos tivessem nascido nas classes privilegiadas. “Quando eu falo que a escrita é uma vingança, é justamente para mostrar que as classes populares, quando se tem oportunidade, são capazes de ser criadores de tudo”, completa.


Enegrecer a Academia Brasileira de Letras


Recentemente, Conceição Evaristo declarou que iria se candidatar à cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras e, desde então, iniciou-se uma campanha pela ocupação da autora na cadeira 7 da academia. A campanha #ConceiçãoEvaristoNaABL tem gerado várias discussões sobre a representatividade negra dentro da ABL, fundada pelo autor negro Machado de Assis e que nunca foi ocupada por uma mulher negra. “Quem são esses escritores e escritoras que estão lá dentro? De que lugares sociais nascem essa escrita? De que lugar de gênero e experiência racial nasce a escrita dos representantes que estão lá dentro?”, questiona Conceição.

Ter Conceição Evaristo ocupando uma cadeira na Academia Brasileira de Letras é importante e necessário, não só pela representatividade negra, mas como diz a poeta Lívia Natália, “é devolver à academia sua vocação literária”.

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