RESENHA | Neo Yokio


Por Patrícia Souza 

O anime foi criado por Erza Koenig, vocalista da banda americana do gênero indie rock, Vampire Weekend e produzida pela Netflix, Fugindo um pouco (ou totalmente) dos "padrões" japoneses. 

Neo Yokio, é uma cidade que permeia um sistema aristocrático em ruínas, trazendo consigo uma estética repleta de futurismo e uma sociedade bem fútil, cheia de "rich problems" em que a inquietude fundamental da população é saber quem está no topo da lista de solteirões mais cobiçados da cidade. 

Dos cobiçados da cidade está o personagem principal Kaz Kaan, dublado pelo Jaden Smith, um exorcista vindo de uma família de magistrados que se importa apenas em combater capetas, estar com o *bullshit* melhor terno e ditar o que as pessoas devem ou não seguir como moda. 

Quem acostumou-se com os clássicos animes em que só há personagens brancos protagonizando, bate no peito pra dizer que é "otaku" e insiste em manter padrões estéticos e de uma raça como superior, além de se cercar de uma bolha confortável de privilégios abstendo-se de críticas sociais, previsivelmente achará o anime ruim. 

O anime, não é apenas um enredo repleto de banalidades, traz consigo nas entrelinhas uma pitada de ironia com uma crítica um tanto dura ao capitalismo. Fazendo alusão de forma niilista à sociedade do "status", do espetáculo e da aparência em que todos estão tão ocupados com suas futilidades que as pessoas não percebem o "demônio" capitalista possuindo pessoas e corrompendo toda sociedade. 

Talvez não tenha sido a intenção do criador, visto que ele é um cara branco, é interessante considerar que só estreou a primeira temporada, contudo é justamente nesse ponto que entra a crítica social. No anime, vários assuntos são tratados como por exemplo dar alfinetadas sobre o comunismo e consumismo sobre a exploração de uma classe sobre outra como um dos artifícios de manutenção do capital quando seu "robô" na verdade é seu mordomo vestido de Robô. 

Dentre estes assuntos, o criador da série consegue retratar de forma sutil sobre a segregação social espacial, em meio a cenas, os becos e vielas das favelas existentes nas cidades ficam "mascaradas" ou " escondidas" entre os condomínios e restaurantes de luxo, tal como e longe da ficção, aqui no Brasil as prefeituras tentam esconder as favelas dos mapa oficiais da cidade tal como ocorreu em setembro de 2017 no Rio de Janeiro. 

No entanto, quando se trata da crítica racial, aparentemente nessa primeira temporada não é demonstrada com tanto afinco na série... Mas, será mesmo que não? 

Vejamos, Kaz é um adolescente exorcista negro - interpretado por um ator negro, interessante destacar- em uma sociedade majoritariamente classista e branca, talvez por nascer naquele meio, não parece ser diferenciado por ser negro em Neo Yokio. As desigualdades sociorracias é um problema estrutural de uma sociedade e de quem às compõe. Mas, como essa sociedade corrompida pelo capitalismo, que inclusive escravizou negros, irá se atentar para os problemas sociais-raciais que faz parte de uma coletividade, se todos estão dentro de suas próprias bolhas individuais repletas de privilégios, aparência e futilidades? 

Como uma sociedade estruturalmente racista com uma branquitude rodeada de privilégios se atentaria para uma opressão e segregação que não lhe afeta? Talvez nisso que se baseia a crítica nas entrelinhas de Neo Yokio. Afinal, não é à toa um personagem negro, interpretado por um ator negro (eis que entra aqui a questão da representatividade, identidade e auto representação), num anime que muitos e o meiozinho otaku faz questão de manter o padrão branco.


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