Quem fez sua roupa? – Uma reflexão sobre o consumo de moda (in)consciente



De uns tempos pra cá, ascenderam os debates sobre os impactos sociais e ambientais causados pelo consumo de fast-fashion ou roupas descartáveis. Falar sobre consumo consciente não se limita apenas a discutir os benefícios de comprar roupas em brechós e bazares ou “comprar de quem faz”, o buraco é muito mais embaixo. Falar de consumo consciente perpassa as questões ambientais, sim, pois a indústria têxtil descarta cerca de 175 mil toneladas de resíduos por ano, onde apenas 35 mil toneladas são reaproveitadas. Isso é reflexo dos modelos atuais que ditam a moda como algo que deve criar diariamente novas tendências, incentivando o consumo desenfreado e produzindo roupas descartáveis. 

Para além de, somente, questões ambientais, devemos pensar em toda a cadeia de produção de uma peça de roupa. Refletir sobre o caminho percorrido por este item até chegar ao nosso guarda-roupa pode nos fazer pensar duas vezes antes de seguir uma tendência de forma irresponsável e começar a pensar em alternativas mais sustentáveis e conscientes para se vestir bem. 

Uma das grandes questões a se atentar sobre o consumo de fast-fashion é as mãos que estão envolvidas naqueles processos. Você sabe quem fez sua roupa? Quais são as condições de trabalho dessas pessoas? As pessoas envolvidas nesta produção foram tratadas, minimamente, como seres humanos? Não é novidade que marcas como Zara, Renner e outras são envolvidas em processos e investigações que denunciam trabalho análogo a escravidão em suas confecções. 

Esses fatos e questões foram algumas das pautas que citei para reflexão. Mas é importante responder algumas perguntinhas para que possamos pensar um pouco mais sobre o que estamos vestindo e a indústria que estamos alimentando. 

E ESSA HISTÓRIA DE RIACHUELO?


No dia 24 de abril, a internet voltou a lembrar do desmoronamento do Rana Plaza, em 2013, em Bangladesh, que acabou ferindo e matando trabalhadores da indústria têxtil e evidenciou as condições precárias de trabalho dessas pessoas, o que acabou denunciando empresas envolvidas. Todo ano nessa data, mulheres da Marcha Mundial de Mulheres fazem ações no mundo inteiro de solidariedade feminista. Entre 12h e 13h, mulheres se manifestaram em frente à Riachuelo, na Avenida Paulista, para denunciar a exploração de mulheres na indústria da moda. Cartazes foram colocados em frente à manequins da loja fazendo essas denúncias. 

O QUE BRECHÓ TEM A VER COM CONSUMO CONSCIENTE?

Entrando novamente no campo da sustentabilidade na moda, os brechós são ótimas opções, pois, além de alternativas com menor custo, fazem as pessoas consumirem roupas que já existem e que duram ainda mais tempo. Em lugares como Londres, a cultura de consumir em brechós e bazares é muito forte. Eventos são feitos até mesmo em garagens, com feiras de vendas e trocas de roupas, e mobiliza muita gente ligada em moda ou simplesmente pessoas que têm pouco dinheiro para pagar em roupas. Aqui no Brasil ainda há um pouco de preconceito com roupas usadas, pois muita gente tem receios que vão desde motivos de vergonha ou nojo à crenças e superstições (pessoas se recusando a vestir roupa de gente morta, por exemplo, é uma das coisas que mais escuto, risos). 

Mas, para além do baixo custo, da consciência ambiental e social que envolve a cultura dos brechós, tem a questão da moda em si também, afinal, comprar peças exclusivas e estimular a criatividade ao se vestir é muito bom. Ver uma peça sem potencial nenhum e ressignificar o seu uso, é o que torna o ato de consumir em brechó muito mais gostoso. Sem falar que a gente não contribui com a exploração de milhares de trabalhadores que, na maioria das vezes, vivem em condições de escravidão apenas para levar ao nosso guarda-roupa uma peça que vai durar três meses ou nem mesmo será usada. 

O QUE É FAST-FASHION E SLOW-FASHION?


A indústria da moda lança novas coleções quase todos os dias. Isso significa que o tempo de produção é muito menor do que o de antigamente, ou seja, as roupas ficam prontas mais rápido e mais pessoas são envolvidas no processo. Isso é o que chamamos de fast-fashion, produção em larga escala e muito dinheiro, muitas pessoas trabalhando, além de peças descartáveis que irão para o lixo muito mais rápido para dar espaço às novas coleções que vão surgindo.

Já o slow-fashion é o que chamamos de consumo consciente. São peças criadas com mais cuidado e personalidade, que demandam um tempo maior de produção, mas em compensação são roupas que terão mais durabilidade e é muito mais fácil saber de onde elas vêm.

O movimento de fashionistas que defendem o consumo consciente vem crescendo gradualmente, o que pode impactar nos consumidores comuns que são influenciados por essa galera. E esse crescimento tem várias origens e motivos diferentes que nem sempre estão diretamente ligados a moda, como o "compro de quem faz", por exemplo, que busca fortalecer o empreendedorismo.

A MODA CONSCIENTE TEM QUE SER SEMPRE BARATA? 


Muita gente nutre a ideia de que consumo consciente é só comprar em brechó ou roupa de baixo custo. Essa ideia está totalmente errada e, inclusive, equivocada. Consumir conscientemente vai muito além. É pensar nos impactos que aquela peça vai causar ao meio ambiente, é pensar no caminho que a roupa percorreu até chegar ao seu guarda-roupa e, principalmente, se preocupar com o que acontece com ela depois. Será que vai durar?

É muito comum ver reclamações por parte do público quando surge uma loja que defende o consumo consciente, mas que cobra um valor mais alto pelas suas peças. Mas devemos levar em consideração a forma como foram produzidas e o valor agregado, afinal, todo mundo quer ter o seu trabalho valorizado. Além de tudo, não faz sentido cobrar apenas R$ 10,00 por uma blusinha que vai durar anos e foi feita com um material muito mais caro e resistente do que as blusas que encontramos em lojas de departamento que, vamos combinar, são tão finas que muitas vezes chegam a ser transparentes. Não é verdade?

Por isso, faz parte dessa iniciativa a valorização do produto e o entendimento de que aquilo não está sendo produzido em larga escala e muito menos com materiais de baixa qualidade. E para quem não consegue alcançar esta realidade consumindo em marcas contemporâneas, os brechós estão aí provando para o mundo que dá para se vestir bem gastando R$ 1,00 e sendo criativo.

COMO CONSUMIR DE FORMA CONSCIENTE? 



Não é difícil, é mais barato (acredite) e você sai muito mais satisfeito, pois as roupas irão durar mais tempo e, com certeza, vão se destacar no meio desse mar da moda descartável. Minha experiência com o consumo consciente veio a partir da parte criativa, eu queria peças legais, mas não queria me vestir igual a todo mundo, sem falar que meus olhos brilharam quando eu descobri que era possível pagar R$ 1,00 em uma blusinha de qualidade. Então minha primeira experiência foi com os brechós. Entretanto, como já citei antes, consumir de forma consciente não fica apenas na esfera dos garimpos. Apoiar sua amiga que faz aquele top lindíssimo de forma artesanal é também consumo consciente e sustentável e faz você impactar vidas com o seu consumo, além de se vestir melhor com peças de mais qualidade. 

Ps: saiba de onde suas roupas vieram!

O CONSUMO INCONSCIENTE 

É hora de dar nome aos bois e falar das marcas que são envolvidas em denúncias e fiscalizações de trabalho análogo à escravidão. O artigo abaixo fala de algumas dessas marcas.

Conheça 9 marcas famosas envolvidas com trabalho escravo

FASHION REVOLUTION WEEK 2018 (em Salvador)


O Fashion Revolution é um movimento mundial formado por ativistas, jornalistas e líderes envolvidos com a indústria da moda sustentável. O movimento tem o objetivo de conscientizar as pessoas sobre o consumo de moda e surgiu justamente da tragédia em Bangladesh, no ano de 2013. 

Este ano, Salvador também recebe a Fashion Revolution Week, que vai trazer diversas atividades e oficinas relacionadas ao tema. 

O evento vai do dia 26 de abril até o dia 29 de abril. Confiram mais informações clicando aqui

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