Ainda sinto as correntes amarradas aos meus pés


Por Bruna Lima

A minha hora chegou e me junto aos milhares de trabalhadores nessas terras que consigo medir juntando a palma da minha mão ao horizonte. Acordo antes das 5h, tento empurrar algum alimento goela abaixo e me sinto insuficiente mais uma vez. A jornada de trabalho é longa. O sol mal nasceu e já sinto os músculos em minhas costas latejando. O peso que carrego me faz ter uma força sobre humana e, ainda assim, a maldade do homem não me permite enfrentar a força do Senhor. Penso em quantos braços iguais aos meus existem e que seriam capazes de tomar o poder e me lembro do medo que existe em mim e que ecoa na alma dos meus irmãos.

O carrasco chega e doma os meus pensamentos. Com o chicote nas mãos e o olhar sedento por mais uma sequência de violência, ele supervisiona o trabalho feito até então. Olho para o céu por alguns segundos de distração imaginando a liberdade e esqueço que isso seria um erro. Sinto minha pele arder. O carrasco me nota e, como prêmio, recebo mais trabalho. O meu corpo já exala exaustão e me senti como um morto-vivo a trabalhar com meus olhos quase fechados. O sol pretende se despedir e ainda tenho horas a fio até poder usufruir de algo que alimente a pouca dignidade que me resta.

Nem sempre foi assim. Já fiz serviços mais leves, mas cometi o erro de ver, ouvir e sentir demais. Andava pela casa grande para finalizar uma das minhas funções quando vi uma de minhas irmãs tendo o seu corpo assediado pelo patrão. Acabei fazendo barulho demais para que ele se assustasse e ela pudesse fugir por pelo menos uma vez daquilo que sofria diariamente. Era como chuva no inverno: por mais que a gente corra, alguns pingos vão nos alcançar e acabar encharcando nossos sapatos. Não sofri nenhum corte na carne, mas tive correntes em meus pés por meses e me privaram da luz do dia. Quando, enfim, pude voltar, senti a terra em meus pés e nunca mais fui a mesma pessoa. A maldade do homem não podia ser interrompida e eu, que sentia saudade do sol, tive o couro queimado pelo mesmo todos os dias.

A vida seguiu igual.

Num momento de paz, sentei com os meus e ouvi sobre o abuso que cada um viveu. Não queria fomentar nenhum pensamento revolucionário mas perguntei porque não fazíamos algo para mudar esse quadro já que somos tantos sob o poder de alguns e a resposta foi unanime: nós só tínhamos aquilo para tentar sobreviver.

Fomos chamados para uma reunião onde os patrões derramavam em nós a sua fé sem deixar de lado a perversidade em seu sangue...

Acordo do meu pesadelo com o som de mais uma pilha de documentos sendo jogada em minha mesa. “Se tem tempo para pensar é porque te falta trabalho.” Disse o chefe com um olhar que me embrulha o estômago. Estou sob uma lei que me suprimiu os direitos e deu mais poder a quem já agia de forma abusiva e me sinto impotente pois preciso disso para tentar sobreviver. Aceito em silêncio. Depois de tudo o que vi, me surpreende o fato de ainda ter esse emprego e não e não ser mais um entre os desesperados por uma vaga nesse submundo.

Outro dia ouvi que mulheres deveriam receber menos que os homens pois engravidam. Ouvi outros absurdos como este de políticos que deveriam falar pela maioria. Entretanto, homens querem ter filhos e o sistema precisa de novos gados para mover a economia. Qual o real motivo leva a punição das mulheres pelo desejo quase canibal de soberania do homem?

Chamam isso de democracia representativa e eu vejo como democracia da repressão.

Mesmo com tanto trabalho e pouco tempo de descanso, consigo analisar o quadro em que me encontro: mulheres prestes a dar a luz trabalhando em locais insalubres já sem condições por medo do futuro, o assédio dos patrões ao encurtar ainda mais os direitos, férias postergadas até o limite e depois parceladas como a compra de um produto qualquer no cartão de crédito, a remuneração baixa por um custo tão alto e o olhar de exaustão e desespero daqueles que se silenciam e aceitam serem negligenciados pois só tem aquilo para tentar sobreviver.

Homens e mulheres, negros e brancos sob o mesmo açoite. A igualdade chegou para aqueles que não tem nada além da vida e o privilégio se mantém para aqueles que tomam as nossas vidas nas mãos dentro desta escravidão não declarada e enfeitada pela mídia. Não temos mais a chibata cortando a nossa carne, mas sangramos do mesmo jeito para alimentar os vampiros do sistema.

Não vivemos mais há 500 anos atrás onde a escravidão era bem vista mas, ainda sinto as
correntes amarradas aos meus pés.

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