Beyoncé e Jay-Z e a história do negro sendo reescrita



Beyoncé e Jay-Z estrearam recentemente um projeto em comum chamado The Carters lançando por inteiro o álbum Everything is Love, no Tidal (posteriormente em outras plataformas digitais) e o vídeo de Apeshit no Youtube. O vídeo, mais uma vez, traz as questões raciais de forma bem nítida. O mais opulento nele, é o fato de ser sido gravado dentro do Museu do Louvre em Paris.


O que nos chama a atenção e abre um leque de debates sobre o ativismo negro é tudo. Tudo mesmo. Tudo está sendo questionado com esse projeto. O clipe em si já trata da presença (ou melhor, ausencia) do negro nas artes tidas como clássicas e nos espaços voltado para a classe artística. Ao mesmo tempo os artistas usam de referencias e mensagens subjetivas para trazer um sentimento de auto-estima e valorizaçao da cor relacionando a presença dos mesmos na história com imagens da deusa romana da vitória Nice (que inclusive é tema de outra faixa do álbum) e outros personagens retratados nas telas, como anjos, amantes e guerreiros.

Cena do clipe de "Apeshit"

Não apenas o papel do negro foi trazido a tona mas o da mulher também. O figurino da artista dotados de poder, se assemelhando à poderosa deusa e sua postura igualitária a do marido em vez da submissão.

Ainda assim, eles não escaparam das críticas. Duras críticas inclusive. Muitos apontaram o clipe e algumas das músicas como arrogante, tem pessoas questionando inclusive o melhor modo do negro se impor nos espaços, levando em conta a luta de classes e ascensão social do casal, como por exemplo a fábrica de roupas no Sri Lanka acusada de promover trabalho escravo.
No entanto, nota-se um esforço em invalidar o trabalho de Beyoncé. Não é a primeira vez, já que ao se posicionar às pautas raciais no álbum anterior Lemonade foi feito o mesmo, inclusive perdendo Grammy para um homem branco. Beyoncé que foi eleita a mulher mais poderosa do mundo em 2014 pela Forbes, uma das poucas e raras exceções de mulheres negras não pode mostrar ao seus, oprimidos por tanto tempo, que a tendência é aparecerem e destacaram-se mais? Será que há um medo da invasão dos negros nos espaços e nas classes? Ou se tratam de meia dúzia de ressentidos pela perda de "farofas do pop" desde que a Diva se ateve a produzir música com conceito e militância?

Pois bem, danoso é ver negros tentando boicotar uma artista preocupada em trazer visibilidade e representatividade em benefício da nossa causa.

Analisando bem, o que Beyoncé e Jay-Z fazem ali é uma obra de arte audiovisual viva, contemporânea e negra num espaço predominantemente (ou totalmente) branco, eurocêntrico onde nós fomos apenas retratados como pano de chão, uma sombra de contraste, assaltados durante séculos, como traz metaforicamente sua coreografia em frente a uma esfinge retratando a invasão francesa no Egito.

O que se pede não é ver Beyoncé como deusa intocável, mas também não invalidar seu trabalho que além de esteticamente bem feito e sensível, tem um valor histórico tão importante quanto o vídeo de This Is America ou até mesmo Triller de Michael Jackson.

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