Você só sabe o que é ser uma mulher quando é uma


Por Danielle Souza

Recentemente eu terminei um relacionamento e senti medo. Não, eu NÃO vivia um relacionamento abusivo, mas por ver diariamente dezenas de mulheres sendo mortas por seus ex-companheiros, temi que isso acontecesse comigo também (mesmo sem ter motivos).

Ser mulher é viver com medo e esse medo é inerente ao gênero (e isso também inclui as mulheres trans). Você já parou para pensar no que deixou de fazer por ser mulher? Na roupa que você não usa pois tem medo de que te achem vulgar. Na saia curta que você não veste pois tem medo de ser abusada. No batom vermelho que você aposentou para não ser assediada. No uber que você solicitou, mas tem medo de que ele desvie o caminho. No horário de sair e voltar para casa, afinal, mulher que anda sozinha a noite pede para ser estuprada, não é mesmo?

Você só sabe o que é ser uma mulher quando é uma e, por mais fértil que seja a sua imaginação, você não conseguiria pensar nas situações constrangedoras que uma mulher passa ao longo da sua vida. Situações essas que começam muito cedo, aprisionando e limitando a mulher ao seu próprio corpo e a uma série de estereótipos ligados ao gênero feminino como delicadeza, fragilidade, dom para afazeres domésticos, etc. Já para os homens são associados espaços públicos, de destaque, políticos, masculinidade, força, altivez, etc. O machismo estrutural da nossa sociedade endossa esses estereótipos e ajuda a perpetuá-los geração após geração, perenizando também os nossos medos.

A ideia da mulher frágil, por exemplo, faz com que o homem, muitas vezes, se ache no dever de “protegê-la” ou de ter autoridade sobre o seu corpo. A partir disso, muitas mulheres são mortas pelos ex-companheiros que não aceitam o fim do relacionamento. Segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia, de janeiro a maio deste ano, 32 mulheres já foram vítimas de feminicídio. E essa situação me faz sentir medo. Será que serei a próxima? Ou será minha amiga? Ou minha tia?

Esse medo que eu sinto (e que você, mulher, também sente) nada mais é do que a herança de um patriarcado estrutural que acompanhou a minha avó, a minha mãe, a mim e a dezenas de gerações de mulheres Brasil a fora. E, ao meu ver, a única  contrapartida eficiente (além da educação dos meninos, é claro) é falar. Expor os medos, os assédios sofridos, as situações constrangedoras, tudo aquilo que nos aprisiona pois, como dizia a pintora mexicana, Frida Kahlo, “amuralhar o próprio sofrimento é arriscar que ele te devore desde dentro”. Não deixe que o machismo te sufoque. Não se Kahle!

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