RESENHA | Felicidade Por Um Fio


A Netflix lançou em 21 de setembro o filme “Felicidade Por Um Fio” (Nappily Ever After), uma comédia romântica que conta a história de Violet Jones, uma mulher negra, publicitária e que, aparentemente, tem a vida perfeita, o emprego perfeito, as roupas perfeitas e... o cabelo liso perfeito.

Quando vi todo mundo falando sobre o filme e após alguns amigos me indicarem, fui rapidamente assisti-lo. Principalmente por conta do tema da minha pesquisa de conclusão do curso de jornalismo que fala sobre cabelo crespo e afirmação da identidade negra.

Logo na primeira cena, o filme me faz disparar vários gatilhos com relação a cabelo na infância. Violet não podia brincar e se sujar como as outras crianças e nem podia tomar banho de piscina, tudo isso por causa do seu cabelo alisado e pelo fato de ser negra. Ela se sujar como as outras crianças brancas tem outro peso e, inconsciente ou não disso, a mãe obrigava Violet a estar sempre limpa, arrumada, comportada e perfeita. Nesse filme, a perfeição é uma questão muito importante para entender as subjetividades tanto de Violet, quanto da sua mãe.

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Na obra, destaco principalmente quatro personagens-chave: a protagonista, Violet, interpretada pela atriz Sanaa Lathan; sua mãe, Paulette Jones, interpretada por Lynn Whitfield; Will, o cabelereiro, interpretado por Lyriq Bent; e Zoe, a filha de Will, interpretada por Daria Johns. Cada um desses personagens têm papéis fundamentais no desenvolvimento da personagem principal e, ao longo do filme, vamos percebendo isso.

Após um incidente que lhe causou um corte químico, Violet se vê obrigada a mudar sua relação com o cabelo. E, junto a isso, romper o relacionamento foi também um fator decisivo nessa relação da personagem com esse cabelo. Apesar de ter me incomodado essa motivação ter se dado a partir da figura masculina e essas relações terem girado em torno de todo o enredo, acho que faz parte também da subjetividade de Violet, que sempre foi ensinada pela mãe a estar linda, perfeita e lisa para agradar os homens.

A mãe de Violet, Paulette, é colocada no filme como a figura responsável por moldar e construir o comportamento da personagem. A postura perfeita e embranquecida foi, desde a infância, incentivada pela mãe. E aqui não a critico, pois nós mulheres negras sabemos o peso do racismo em nossas vidas e imagino que não deve ser fácil criar uma criança negra nesse mundo. Foi questão de sobrevivência e percebemos isso em uma cena no final do filme.

Will, o cabelereiro, entra no filme como um contraponto a Clint, o ex-namorado de Violet. Eles se relacionam durante um momento e Will é esse cara que a faz se sentir confortável e ela mesma. Além disso, a relação que o personagem tem com o cabelo crespo e a identidade negra é um fator importante para as decisões que Violet toma em certos momentos.

A filha de Will, Zoe, é tudo o que Violet queria ser. Uma criança doce e livre com o seu cabelo e sua identidade. Podemos dizer que Zoe é uma criança empoderada (risos). E isso se deve a criação do pai, que sempre resistiu à mãe da garota, que alisava o cabelo, e nunca deixou que ela alisasse o cabelo da filha. E Zoe é uma criança livre, ela faz o que quer e o que sente vontade. Em uma cena com Zoe e Paulette é possível perceber o quanto uma criança negra incomoda, mesmo sendo igual às outras crianças brancas. Na cena, a menina estava próximo da mesa de comidas, olhando e escolhendo o que comer, e sabemos que isso é coisa de criança, mas Paulette a olha feio, briga com Zoe e demonstra ser um incômodo.

Por fim, Violet é a personagem que nos mostra que não é só cabelo. Existe um sentimento de liberdade na cena onde ela raspa os cabelos que me emocionou, porque foi como me senti quando fiz o big-chop e tenho certeza que outras mulheres negras que passaram pela transição capilar também sentiram. O filme conseguiu transparecer muito bem esse sentimento de liberdade.  E é a partir desse momento que a identidade de Violet começa a florescer, ela começa a perceber que não é obrigada a agradar os outros, ela percebe como o racismo age quando passa a ser ignorada com o cabelo raspado ou crespo, ela percebe os olhares.

Felicidade Por Um Fio é um filme que mostra o quanto a transição capilar é um processo importante na vida de mulheres negras. Assumir a estética crespa é assumir uma corporeidade e identidade racial que sempre foi sua, mas esteve escondida, pois a branquitude se auto-afirma como estética bela e superior e coloca a estética negra como inferior. E no momento em que decidimos assumir nossos cabelos crespos, estamos assumindo também uma estética de afirmação, de orgulho e também de resistência, pois se sentir bonita com a estética que é colocada como feia durante toda a sua vida é um ato revolucionário.

Veja o trailer: 

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