Nós valorizamos mesmo o Carnaval Negro de Salvador?



Mesmo sendo considerada a cidade mais negra fora do continente africano, o público de Salvador ainda tem dificuldades no que diz respeito a valorização dos artistas negros, principalmente dos blocos afro, na época do Carnaval. Durante o tempo que trabalhei como repórter de um veículo com o foco na população negra, pude ver no Carnaval o desespero de muitos blocos afro e afoxés sem saber se teriam ou não dinheiro para sair em algum dia. Será que estamos mesmo valorizando as nossas raízes ou dando o nosso dinheiro para blocos que não nos representam?

Em tempos de empoderamento e discussões sobre questões étnico-raciais, é válido parar para pensar em quem são as pessoas que curtem e valorizam o Carnaval Negro. Sempre vejo gente de fora demonstrando interesse em ver os blocos afro e afoxés. Mas sinceramente? Em dois anos que acompanho a festa, percebo que grande parte das pessoas que conheço e das que acompanho nas redes sociais marcam presença no Circuito Barra-Ondina e, mesmo quando vão curtir o Carnaval do Centro, acabam vendo bandas que sempre tocam por aqui ou os que vêm de fora.

Mesmo que o governo coloque alguns desses blocos na programação, é possível perceber que não há muito interesse em mantê-los ali. Eles precisam da cultura negra, mas não dos negros. A não ser ocupando os espaços que estamos acostumados a nos ver: como cordeiros e afins.

É necessário pontuar que a participação dos negros no Carnaval inicialmente sofreu rejeição e hoje permanece nesse estado de “estar lá porque tem que estar”, mas não necessariamente sendo valorizados. Segundo Osmundo de Araujo Pinho (2002), no artigo “Deusas do Ébano: A Construção da Beleza Negra como uma Categoria Nativa da Reafricanização em Salvador”, o Carnaval já surge no Brasil com a ideia de “festa da civilização”, assim já é possível imaginar que os negros acabaram sofrendo rejeição ao tentar aderir à festa. Na época em que a população negra começou a manifestar sua cultura no Carnaval, os batuques eram considerados como “ensaios” e geravam revolta na população branca que participava da folia. Hoje conhecemos esses ensaios como os que antecedem a festa.

Mesmo que atualmente a participação dos negros seja permitida no Carnaval, ainda ocupamos esse lugar já citado: “estar porque tem que estar”. O que me leva a questionar sobre o porquê esses blocos e artistas não são tão valorizados como um bloco de Anitta, por exemplo, mesmo o Carnaval sendo uma festa democrática, como dizem.

Há quem argumente que estamos em tempos onde é mais legal e econômico sair na pipoca. Realmente é mais barato. Mas não é a toa que muitas empresas ganham tanto dinheiro no Carnaval, principalmente com blocos que custam fortunas de dinheiro… E tem gente que paga sim. Sair num bloco afro não chega a ser tão caro quanto os demais, prova disso é que o mais “caro” é o do Ilê Aiyê, que custa cerca de R$700,00. Porém, de um modo geral, os blocos afro e afoxés cobram de R$20,00 a R$320,00, segundo o Portal Correio Nagô.

A verdade é que, na pipoca ou dentro da corda, nós não valorizamos a participação do nosso povo no Carnaval. Enquanto continuarmos deixando o nosso dinheiro ir para mãos brancas, ainda estaremos longe da emancipação. Se esses blocos sofrem com crises em quase todos os anos, levando-os a se desesperar sem saber se terão dinheiro para sair ou não, devemos repensar em quais participações nós valorizamos no Carnaval. E esse peso quem carrega não é só o folião, é também o governo e as empresas que dão tanto dinheiro para artistas brancos e não-baianos saírem no Carnaval e nos deixam como última opção.

É por isso que convido todos a dar uma olhadinha na Programação do Carnaval de Salvador e abrir espaço na suas respectivas agendas carnavalescas para os blocos afro e afoxés que tanto valorizam a nossa cultura, beleza e ancestralidade.

Pelo menos um dia, vá ver um bloco preto passar na Avenida!

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