Resenha | "Ladrão", de Djonga, promete roubar de volta o que tiraram de nós


Quem é preto sabe o peso que é levar a fama de ladrão, mas neste álbum o rapper mineiro Djonga dá outro significado a esse estereótipo.

Quando eu era criança, eu andava na rua e me sentia ladrão mesmo quando nunca tinha roubado nada. As pessoas olhavam com medo. Quando cresci mais um pouco, roubei pra ter e pra me sentir melhor, pra me sentir fodão… O tempo passou e eu entendi que tipo de ladrão eu devia ser: esse que busca e traz de volta pras minhas e pros meus. Se preparem pra ver meu melhor, eu juro que eu dei meu melhor, e dessa vez eu to falando sério. Quando eu disse que queria ser Deus, eu não sabia a responsa que eu tava chamando pra mim. Quando eu entendi, eu percebi o que eu devia fazer, aí eu fui lá e fiz o que eu sempre fiz: roubei, roubei e trouxe de volta!

“Ladrão” é o terceiro álbum de estúdio do rapper e foi lançado nesta quarta-feira (13), primeiro no YouTube e depois nas plataformas de streaming. Segundo ele, o lançamento no YouTube foi para igualar o acesso a todas as pessoas que o acompanham.

Djonga já causa impacto pela identidade visual, com a capa trazendo uma imagem que remete a um filme de terror, onde ele segura a máscara de um membro da Ku Klux Klan, movimento reacionário e supremacista branco, enquanto a sua avó aparece sentada no sofá. "Vou roubar o patrimônio do seu pai", diz ele já na primeira faixa, intitulada “HAT-TRICK”, que fala sobre roubar de volta o que tiraram de nós e de trazer autonomia e sucesso para a população negra.

Com 10 músicas, o álbum foi gravado de forma caseira, em um estúdio montado no andar de cima da casa de seus avós, carregando assim o sentimento de resgate ancestral. Djonga revela que as faixas trazem cargas de experiências muito pessoais, e como histórias negras se tangenciam, é impossível não se identificar.

Trazendo referências sobre a vida de pessoas negras, ícones da Música Popular Brasileira (como Elis Regina) e obras de grandes cineastas negros como Jordan Peele (diretor do longa-metragem “Corra!”, que ganhou um Oscar em 2018), Djonga não deixa de falar sobre o momento político atual do Brasil e dos desastres de Brumadinho e Mariana.

Conheci o trabalho do rapper recentemente e, a partir de então, foi uma enxurrada de sensações e ideias potentes trazidas pra mim, primeiro com “A Música da Mãe”, depois com o seu show em Salvador, no Festival da UNE. A primeira reação após ouvir “Ladrão” é, sem dúvidas, a falta de palavras à medida em que as ideias vem trazendo reflexões. “Ladrão” é um álbum potente, que discute sobre a opressão vivida pela população negra ao mesmo tempo em que celebra o sucesso de jovens negros, que resistem se mantendo vivos dentro de um sistema genocida e conseguindo ascender e alcançar outros espaços. É um álbum político, que aborda temas caros aos negros, falando também de afeto, ancestralidade e emancipação.

Djonga usa o estereótipo de negro ladrão para tomar o que, historicamente, a sociedade racista, escravocrata e excludente roubou de nós, como a autoestima e dignidade… as nossas vidas. Carregar a cabeça decapitada de um membro da Ku Klux Klan na capa do álbum é mais do que provocativo, é cobrar dívida histórica, é não esquecer de tudo o que a sociedade deve à população negra.






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