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Histórias Cruzadas é daqueles filmes que você se pergunta por que não assistiu antes. Ouvi falar dele já na época em que foi indicado ao Oscar, mas nunca tive coragem de apertar o play. Talvez por saber que ia doer. 

A história acontece na cidade de Jackson, no Mississipi, nos anos 60. Era a época em que a luta pelos direitos civis e a segregação racial estavam latentes, e onde os únicos espaços que as mulheres negras podiam ocupar eram os cantos das casas de famílias brancas a quem elas serviam. Skeeter é uma jovem que tem o sonho de ser escritora e se aproxima de Aibileen (Viola Davis) após conseguir o primeiro emprego na coluna de conselhos domésticos de um jornal, entretanto, como ela não sabe nada sobre o assunto, Aibileen a ajuda. Alguns acontecimentos incentivam Skeeter a querer escrever sobre como as mulheres negras se sentiam no trabalho como empregadas domésticas.

Aibileen decide relatar a sua experiência como empregada e logo após Minny (Octavia Spencer – Vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) resolve contar também. Os relatos trazem dor para alguns e vergonha para outros. Há muitos pontos que gostaria de destacar nesta história, mas principalmente o quanto são depoimentos que muitas vezes acontecem até os dias de hoje.

Às vezes a necessidade de um banheiro separado para os negros, como acontece na história, se mostre nos dias de hoje de formas diferentes. Coisas como essa acontecem todos os dias no Brasil e a hashtag #EuEmpregadaDoméstica, viralizada nas redes sociais em 2016, se faz presente como prova virtual, viva e mais atual do que imaginamos. Essas dores podem se fazer presentes na vida de mulheres negras ao serem proibidas de usar banheiros de brancos ou ao deixar seus filhos se criarem sozinhos enquanto criam crianças brancas por causa da necessidade de sobreviver.

Todas as temáticas que o filme toca são muito atuais, mas invisibilizadas, porque essas mulheres permanecem silenciadas, no canto... Invisíveis. Um ponto que a história talvez não discuta, mas que me marca bastante, principalmente após ler Mulheres, Raça e Classe, de Angela Davis, é o quanto o movimento feminista nunca será emancipador enquanto não for interseccional. Um pouco antes da época em que o filme se passa, em 1919, as mulheres (brancas) norte-americanas conquistaram o direito ao voto (branco). Ter em 1960 a segregação racial e também em 2016 (ou até em 2019) relatos de humilhações sofridas por mulheres negras no trabalho de empregadas domésticas nos mostra o quanto há discrepância neste movimento, que só será sobre emancipação feminina quando lutar – de verdade – por todas as mulheres.

Apesar de Histórias Cruzadas mostrar muito de nossas dores, a obra mostra também o quanto mulheres negras nunca se curvaram ao racismo de mulheres e homens brancos. Uma cena que marca bastante é quando uma das empregadas domésticas é levada a força pela polícia acusada de roubar um anel da casa onde trabalhava. Depois de verem a violência com que a mulher é imobilizada e levada, Skeeter se depara com a casa de Aibileen lotada de mulheres que querem falar tudo o que sofreram nas mãos de patroas brancas. No mesmo instante me veio a mente uma fala da autora Conceição Evaristo, em entrevista ao site CartaCapital:

[...] Aquela imagem da escrava Anastácia, eu tenho dito muito que a gente sabe falar pelos orifícios da máscara e às vezes a gente fala com tanta potência que a máscara é estilhaçada. E eu acho que o estilhaçamento é um símbolo nosso, porque nossa fala força a máscara.

No momento em que decidiram dar seus relatos, essas mulheres romperam a máscara do silêncio imposta pelo racismo. Mesmo que depois elas precisassem voltar para aquelas casas, voltar a serem humilhadas e invisibilizadas, elas jamais estariam novamente silenciadas. E tanto Aibileen quanto Minny demonstram isso.

É incômodo ver Skeeter reforçando o estereótipo com o papel de “branca salvadora”, mas ainda isso se faz realista, pois na época seria impossível que uma mulher negra relatasse casos assim em um livro sem sofrer consequências. Entretanto, por mais que o filme mantenha a figura de Skeeter como a personagem que conseguiu escrever e reunir os relatos, a grande escritora  dessa história é Aibileen, que sempre ouviu que teria um escritor na família – e era ela.

Histórias Cruzadas são escrevivências de mulheres negras que nunca estiveram em silêncio, apenas silenciadas.


Finalizo referenciando novamente a brilhante Conceição Evaristo, com o seu poema Vozes-Mulheres, que em minha opinião diz muito sobre o ciclo de mulheres empregadas domésticas de grande parte das famílias negras brasileiras. Esse ciclo está sendo rompido por muitas meninas negras, inclusive eu, que têm a oportunidade de traçar outros caminhos, como o acesso a universidade. As casas de famílias brancas não são os únicos espaços que mulheres negras podem ocupar e estamos iniciando uma geração que evidencia isso, repassando o recado para outras meninas como nós.

Vozes-Mulheres (Conceição Evaristo)

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.



A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.

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