Se permita falar - Ashismos, por Ashley Malia

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quarta-feira, janeiro 15, 2020

Se permita falar


Sempre que eu tenho um momento de diálogo com mulheres negras, percebo que o silenciamento provocado pelo racismo causou diversos danos, e um dos sinais disso é o quanto não calamos a boca, o quanto o assunto nunca acaba e o quanto conversamos como se fosse a última vez que fôssemos nos ver. No dia do Culto da Punanny Sound System não foi diferente.

Fui ao evento após uma amiga me incentivar muito. Neste dia, fizemos uma dinâmica de se apresentar olhando o próprio reflexo no espelho. Não sei se isso seria algo normal para qualquer outra pessoa, mas para nós, mulheres negras cheias de complexidade e traumas, foi uma experiência muito forte. Para mim, foi algo que nunca nem imaginei fazer. Eu falei sobre mim, falei sobre os meus medos, dúvidas e vitórias, e falei sobre um trauma que eu nunca tinha falado na frente de tantas pessoas assim.

Você já contou para si mesmo tudo o que já passou? Contar mesmo. Profundamente. Olhando nos próprios olhos. Depois de contar para mim mesma sobre o meu trauma, eu percebi que nunca havia feito isso. Eu nunca olhei nos meus olhos e verbalizei o quanto eu tinha dúvida se aquilo havia ou não acontecido, nunca verbalizei o quanto eu me acho louca, o quanto eu acredito em tudo o que me falaram, que, de fato, eu imaginei tudo e foi algo criado pela minha cabeça. Mas não. Aconteceu. E eu sei disso porque muitas relataram o mesmo sentimento: “será que eu sou louca?”. E é cruel tudo o que fazem com a gente. E foi muito libertador contar minha história para mim mesma, chorar, soluçar, me dizer o quanto eu tenho dúvidas do que aconteceu comigo, e me consolar, e me fazer acreditar que tudo aquilo foi real, e eu superei e continuo superando.

Contar minha própria história e presenciar outras mulheres contando as próprias histórias, chorando, soluçando e se consolando, foi libertador. Eu respirei mais leve e percebi que preciso praticar isso outras vezes. E isso, de certa forma, me aproximou ainda mais de mulheres que admiro e amo ter perto de mim. De alguma forma, o Culto da Punanny – agora entendo o nome – nos causou uma conexão só nossa, com uma sensação que só quem vai sentir é quem esteve lá.

Se permitir falar é uma das grandes conquistas de nós, mulheres negras. E nos permitimos. Após essa experiência, algumas amigas e eu fomos para casa e durante mais de 15 horas nós falamos sem parar. Não percebemos as horas passando e nem o dia amanhecendo, e mesmo quando amanheceu nós continuamos falando. Não dormimos, o assunto não acabou, não teve um minuto sequer de silêncio. O único momento de silêncio durou alguns segundos e só fizemos uma pausa para pensar “uau, a gente não parou de falar até agora”.

Foi uma noite de troca, desabafo e afeto. Prometemos uma para a outra falar mais, porque mesmo depois de perceber o quanto mulheres negras são carentes de ouvidos, ainda sofremos em silêncio por minimizar aquela dor ou acreditar que ninguém jamais entenderia. Mas todas nós entendemos uma a outra, por mais particular que seja a vivência de cada uma, pois o racismo é tão cruel que conseguiu conectar até histórias completamente distintas.

Esses momentos me despertaram vários pensamentos. Sobre fala, cuidado, afeto, amizade e solidão. Há algum tempo eu já vinha refletindo sobre a solidão da mulher negra estar, também, muito presente nas relações de amizade. Por que eu, mulher preta, com tanto a falar, tanta inteligência para trocar, tanto diálogo para provocar, nunca antes tive uma melhor amiga? Por que eu, mulher preta, tenho traumas de “trios de amizade” até hoje? Por que tenho tanto medo de ter o mesmo nível de amizade com duas pessoas e acabar sendo deixada de lado por elas, que se preferem? O preterimento está em vários âmbitos da nossa vida, inclusive esse. E é por isso que é tão difícil para a gente se permitir falar. Mas a fala e o choro liberta, e choramos umas para as outras, mostramos nossas fortalezas e fraquezas.

Isso me lembra o quanto faz sentido a frase verbalizada pela Maria Eduarda, enquanto olhava o próprio reflexo no espelho, no Culto da Punanny: “a gente tem que aprender que ser forte também é ser fraco”. Por isso é necessário falar. Quando a gente fala das nossas fraquezas e dores, a gente se torna mais forte.

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