Educação antirracista tem papel fundamental no combate à discriminação racial - Ashismos, por Ashley Malia

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sábado, março 21, 2020

Educação antirracista tem papel fundamental no combate à discriminação racial

Foto: Neena Rani | Nappy

Em uma sociedade estruturada pelo racismo, pensar na educação pode ser uma das formas mais eficazes de combater a discriminação racial. Diversos relatos de pessoas negras dão conta de expor que é no ambiente escolar onde acontecem as primeiras experiências com o racismo, seja a partir de comentários e ofensas direcionadas a características negras, como o cabelo crespo, a cor da pele e os traços do rosto; ou através da ausência de diversidade no modelo educacional, onde muitas vezes os autores negros e as questões étnico-raciais estão ausentes nas referências dadas em sala de aula.

“A escola é um espaço de formação de cidadania, o primeiro lugar onde socializam fora de seus ambientes familiares. É um lugar onde historicamente pessoas negras foram vítimas de racismo de forma muito direta e dolorosa. Lembro-me na minha época, durante os anos 80 e 90, o que foi para uma menina negra frequentar esses espaços. Os professores e professoras não tinham o menor preparo para lidar com o tema e já na infância as pessoas reproduziam racismo, com o qual seguiram em sua vida adulta”, explicou, em entrevista ao Ashismos, a filósofa e ativista, Djamila Ribeiro, autora dos livros ‘O que é lugar de fala?’ e ‘Pequeno Manual Antirracista’.

Segundo Djamila, que é um dos nomes mais conhecidos quando se fala em ativismo negro no Brasil, a educação antirracista nas instituições de ensino tem um poder transformador e é algo que deve perpassar não apenas o estudante, mas os professores e professoras, diretores e diretoras de cada instituição. Ela afirmou que é preciso entender o ensino público como um projeto de precarização de estudantes pobres e negros do país.

Um dos nomes de mais destaque do ativismo negro atual, Djamila Ribeiro lançou recentemente o livro 'Pequeno Manual Antirracista' | Foto: Salipi

“As intersecções que atravessam a identidade colocam a população negra brasileira como maioria da população pobre. Muita gente é pobre, porque é negra, já que houve um projeto histórico desde a colonização em marginalizar pessoas negras de acessos a serviços dignos, inclusive o ensino”, pontuou.

Para a deputada estadual (PCdoB), pedagoga e militante do movimento de mulheres negras, Olívia Santana, o papel dos educadores é estabelecer a mediação, instaurar a reflexão e, portanto, assumir uma atitude educativa antirracista. Para isso, segundo Olívia, é preciso que esses educadores estejam preparados e prontos para problematizar situações de conflito nas escolas.

“É preciso essa perspectiva de educar para emancipar dessa questão que é tão arraigada a nossa formação cultural que é o racismo. Tem que investir em formação de professores, garantir nas escolas um ambiente que dialogue e mostre que o racismo é crime, mas não só nessa perspectiva da criminalização e punição, mas, sobretudo da valorização do papel da população negra, trazer referenciais positivos para aquelas crianças e jovens”, afirmou, citando que é preciso abordar as figuras de intelectuais negros, extrair trechos do pensamento desses estudiosos e levar para a sala de aula.

Educar para emancipar

Educação antirracista no combate ao racismo é projetar uma sociedade com humanidade, diz coordenadora pedagógica do Instituto Cultural Steve Biko | Foto: Reprodução | Instagram

Educação antirracista no combate ao racismo é projetar uma sociedade com humanidade, diz coordenadora pedagógica do Instituto Cultural Steve Biko | Foto: Reprodução | InstagramEducação antirracista no combate ao racismo é projetar uma sociedade com humanidade, diz coordenadora pedagógica do Instituto Cultural Steve Biko | Foto: Reprodução | Instagram
Surgido em julho de 1992, o Instituto Cultural Steve Biko, localizado no bairro Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, percebe a necessidade de se atentar à educação antirracista, pensando no acesso dos jovens negros às universidades. Com iniciativas como o curso pré-vestibular, o programa de fomento à ciência e tecnologia OgumTec e intercâmbios, a instituição desenvolve, a partir da ancestralidade negra e cosmovisões africanas, um modelo de educação que possibilita o olhar para outros atores sócio históricos que construíram o Brasil.

Se o sistema educacional assume a pauta da educação antirracista nós vamos ter um salto muito qualitativo no conjunto da sociedade 
- Olívia Santana, deputa estadual, pedagoga e militante do movimento de mulheres negras 

“A gente trabalha com esses jovens através da disciplina Cidadania e Consciência Negra, que é o eixo de qualquer projeto da instituição. Não é uma disciplina, mas sim uma filosofia de vida, onde devolve o protagonismo do povo preto à sua história. A gente vai na contramão dessa educação hegemônica, na medida em que a gente possibilita aos estudantes jovens negros a conhecerem a história de seu povo, o conteúdo da diversidade, e não a um único conteúdo, que é hegemonicamente eurocêntrico”, destacou a diretora pedagógica do Instituto Cultural Steve Biko, Tarry Cristina.

De acordo com ela, a educação antirracista no combate ao racismo é projetar uma sociedade com humanidade, além da diversidade e respeito.

Atuando há mais de 25 anos em sala de aula, a professora Licia Maria Andrade, 52 anos, percebeu a falta de conhecimento das famílias dos estudantes em responder sobre a etnia de seus filhos e decidiu levar para seus alunos temáticas como as relações étnico-raciais. Fã de Chico César, ela encontrou na musicalidade uma forma de levar discussões para a sala de aula.

“Além das músicas de Chico César, propus pesquisas sobre intelectuais negros. Ano passado, por exemplo, em duas turmas de segundo ano do noturno, montamos um painel com personalidades como Jovina Souza, Landê Onawale, Milton Santos, Elisa Lucinda. Abdias do Nascimento, Alessandra Sampaio dentre outros”, contou a professora, que busca também incentivar os alunos a enxergarem que podem chegar onde quiserem.

Se o sistema educacional assume a pauta da educação antirracista, a sociedade, segundo Olívia Santana, terá um salto qualitativo, pois assumindo essa pauta como prioridade, a sociedade inteira se modifica.

“O adulto de amanhã será formado hoje com outras referências”, finalizou.

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