Ads Top

Minhas leituras foram colonizadas


Neste 14 de março, a autora brasileira Carolina Maria de Jesus completaria 106 anos. Aproveito a data para chamar atenção ao tema da invisibilidade que autores negros ainda sofrem no Brasil e expor a minha trajetória de leituras colonizadas.

É cada vez mais necessário continuar falando que esse reconhecimento da população negra enquanto produtores de literatura precisa vim de forma urgente, pois ainda em 2020, quando chegamos nas livrarias, vemos autores negros restritos apenas às sessões ditas como “literatura negra”, como se a escrita branca fosse universal. Não podemos continuar entre os recortes, pois as palavras de mulheres e homens negros contribuíram, de forma imensurável, para a literatura rica que temos hoje no país.

Quando adolescente, os livros eram o que me salvavam da solidão. Revisitando minhas memórias, percebo que desde a infância foi algo presente na minha vida e, talvez, isso tenha sido a forma que os adultos ao meu redor conseguiram de me distrair, já que eu não convivi com muitas crianças.

Na adolescência eu não tinha prateleiras para guardar os livros, mas o guarda-roupa, o chão do quarto e os cantinhos da sala eram espaços onde eu guardava os livros. Todos brancos. Fã de sagas de fantasia e ficção, como Percy Jackson, Harry Potter e Jogos Vorazes, cresci sem referências em que eu pudesse me identificar nessas histórias. Envolvida com um fã clube de Percy Jackson – que me rende paradas na rua até os dias de hoje –, em meio a uma infinidade de personagens brancos (e olhem que essas histórias eram ricas em personagens), restavam apenas um ou dois personagens negros, que eram os que podíamos fazer cosplay ou nos identificarmos.

Meu start se deu ao chegar, num dia qualquer, em uma livraria e encontrar um livro da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Com uma escrita envolvente, Chimamanda me prendeu na livraria por umas boas duas horas e, apenas depois de muito tempo, parei para refletir que, durante a leitura, eu estava imaginando todos aqueles personagens como se fossem brancos. Vejam bem, Chimamanda é uma escritora nigeriana e seus contos se passavam em países de África. Esse foi o reflexo do quando as minhas leituras foram colonizadas.

Depois do episódio, fiz um movimento de buscar autores negros para ler. Logo eu, descontrolada ao comprar livros, nunca antes tive acesso a autores negros. Conheci Carolina Maria de Jesus e, desde então, suas escrevivências, como diz Conceição Evaristo, vieram me envolvendo e fazendo crescer o desejo pelo consumo de livros de escritores negros.

Quarto de Despejo se tornou meu livro favorito. Apesar de nunca ter passado fome, como Carolina, consegui enxergar naquelas páginas a realidade da população negra e muitas outras nuances que tornavam aqueles diários parte da minha vivência também. Enquanto mulher semianalfabeta, Carolina passou a ler e escrever com os livros e diários que encontrava no lixo, quando ia catar papel buscando fazer uns trocados que lhe permitissem alimentar os três filhos que criava sozinha. Foi lendo Quarto de Despejo que tive consciência do quanto o epistemicídio agiu – e continua agindo – para que as nossas formas de expressão literárias sejam vistas como erradas.

Até os dias de hoje nos dizem que falamos e escrevemos errado, mas é apenas porque não nos encaixamos no padrão educacional que foi construído para nos excluir. Assim, entendo a literatura de Carolina Maria como algo de extrema importância para o Brasil não só entender os reflexos da escravização, que nos colocou nas favelas, que são os quartos de despejo das grandes cidades, mas também para que o país reconheça a dívida história que tem com o nosso povo, por invisibilizar nossa escrita e tratar as nossas produções com menos dignidade.

Carolina Maria de Jesus foi a primeira autora negra a ser reconhecida no Brasil, mesmo assim o reconhecimento só veio depois de muitos anos. Precisamos refletir sobre quais vozes estamos dando atenção e quais produções são valorizadas. Negar essas produções literárias é uma forma de silenciamento, ignorar tudo isso é nos silenciar.

Até hoje vemos autores negros que precisam de muito mais esforço do que os brancos para serem reconhecidos. Quando ampliamos a discussão para o âmbito das produções literárias femininas, essa realidade se mostra ainda mais preocupante. Por isso, busco sempre dizer e repetir: leiam autoras negras, deem voz e ouvidos para essas mulheres.

Enquanto isso, volto a exercitar também a minha escrita de forma mais pessoal e literária, um pouco distante do que habitualmente escrevo diariamente. Desta vez, meus personagens não serão mais brancos e sim negros e negras, como eu e como as minhas amigas, para que não precisemos mais tentar nos encaixar nos personagens únicos que os brancos criaram, na tentativa racista de dizer que somos um só. Somos diversos e é preciso que as histórias que consumimos tenham personagens diversos.

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.