BBB, discriminação racial e o medo da palavra “racismo”

Foto: Reprodução | Rede Globo

Não acompanho o Big Brother Brasil (BBB) há muitos anos, mas, vez ou outra, algum assunto acaba chegando até mim, pois sou usuária assídua do Twitter, onde uma boa parte do público narra diversos episódios do reality show da Rede Globo. Nunca antes vi no BBB discussões tão potentes sobre racismo. Claro que já existiram outros negros no programa, mas as situações de discriminação desta edição parecem ser mais gritantes (ou o público está mais engajado nos debates).

Apesar de seguir uma parcela da bolha da internet que está constantemente discutindo temáticas sociais, acredito que o debate sobre racismo acabou chegando ao público comum. Isso pela força da discussão, mas também por estarmos vendo na telinha episódios escancarados de racismo e segregação. Acredito também que o indivíduo negro incomoda mais a branquitude quando ele assume uma postura afirmativa, e aí é que eles não conseguem disfarçar o quanto se consideram superiores. É por isso também que, na minha visão, conseguimos ver com mais nitidez o racismo direcionado à Babu do que à Thelma. Pois o brother está sempre destacando o orgulho que sente em ser negro e vim da periferia. Não de forma tão óbvia, mas sim em atitudes, posturas e comentários. E, meus caros, não ter vergonha de ser preto é, realmente, algo que deixa a branquitude inquieta.

Aproveito para deixar claro que eu não assisti a nenhum episódio desta edição do BBB e estou acompanhando apenas as discussões e alguns fragmentos do cotidiano dos Brothers, que acabam sendo compartilhados nas redes sociais. Entretanto, o que eu já vi é suficiente para me indignar e querer falar sobre isso, pois o que vejo são situações muito sérias de racismo velado, recreativo, estrutural e completamente escancarado.

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Vimos nesta edição um debate fervoroso sobre machismo dentro da casa, que contribuiu para que o público, de uma forma mais ampla e além das redes sociais, pudesse refletir sobre como essa questão está presente na sociedade. A cada semana, vimos os homens considerados machistas serem eliminados, um a um, até restar apenas o único homem negro da casa, junto com várias mulheres.

Primeira questão a se pontuar é a dificuldade que temos em nomear o racismo, principalmente quando ele se apresenta em lugares de grande visibilidade, como em um reality show, na maior emissora do país. Por que o debate sobre machismo teve nome, rostos e debates, enquanto a discussão sobre racismo foi transformada em vitimismo, minimizada e silenciada? É como se RACISMO fosse uma palavra proibida.

O racismo é silencioso, multifacetado e estratégico. Diante de uma sociedade que não acredita que a opressão racial exista no Brasil, precisamos nomeá-la, pois ela se apresenta, principalmente, de forma velada e escondida. Essa falta de crença na opressão acontece, pois, como explica a doutoranda em Sociologia Winnie Bueno, em uma entrevista para O Globo, “a tipificação do racismo tem uma descrição restrita, por ser crime inafiançável, mas o comportamento e as estruturas de discriminação racial não estão contidas apenas no que é reconhecido como crime”, ou seja, grande parte da população brasileira acredita que o racismo é apenas aquilo que está previsto na lei (muitos ainda assim questionam sua existência) e não consegue enxergar que o ideal de superioridade da branquitude, que respinga em muitos comportamentos cotidianos (dos mais absurdos aos mais sutis), é também uma forma de racismo.

Como diretor-presidente do Instituto Luiz Gama, além de advogado, filósofo, doutor e pós-doutor em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Silvio Luiz de Almeida, explica na obra “Racismo Estrutural”, que faz parte da Coleção Feminismos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro:

“O racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo ‘normal’ como se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um arranjo institucional. O racismo é estrutural.”

Sendo estrutural e estruturante, o racismo opera em todas as esferas da nossa sociedade, isso significa que ela funciona de forma racista e as pessoas que fazem parte dela aprendem a conviver e se relacionar de forma racista. Não é a toa que muitas expressões e palavras, já inseridas há muito tempo no nosso cotidiano, sejam originalmente racistas, como “criado-mudo”, “magia negra” e “denegrindo”, por exemplo.

Dito isto, por ser um fenômeno social estrutural, o racismo age de forma silenciosa, fazendo as próprias vítimas da discriminação terem receio de nomear, pois a todo momento correm o risco de serem deslegitimadas e culpabilizadas por uma suposta “vitimização”, é o famoso “vendo racismo em tudo” ou “vendo racismo onde não tem”.

Esse receio da palavra racismo ficou evidente para mim no BBB quando diversas vezes deixou Babu implícito que sofria racismo dentro do programa, mas nunca nomeou, de fato. Entendo o receio, pois vivemos em uma sociedade que torna muito fácil essa deslegitimação e falar isso em rede nacional poderia prejudica-lo de diversas formas. Outra questão problemática no contexto do BBB foi perceber a invisibilização do racismo no programa durante muito tempo, sendo um debate restrito à bolha. Porém, a questão só teve algum tipo de “valor” quando uma mulher branca, a Manu Gavassi, alertou para o racismo (ainda de forma implícita e não-nomeada) que Babu sofre ali dentro. É como se precisássemos sempre da validação na fala de uma pessoa branca para que as pessoas acreditem que ali tem realmente uma situação de racismo.

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Quem está do lado de fora consegue enxergar na “casa mais vigiada do Brasil”  uma versão reduzida da sociedade, com cada figura representando um tipo de brasileiro e, com certeza, fenômenos de opressão se fazem presentes em diversos momentos do reality show. Exemplo disso é a trajetória de Babu, que foi alvo de racismo várias vezes, foi excluído e teve sua imagem associada a um “monstro”. A construção da imagem de “monstro” associada a Babu foi reforçada por grande parte das mulheres da casa, a maioria brancas. É realmente muito doloroso e pesado ver isso acontecendo, principalmente porque a ideia de violência e monstruosidade é algo que persegue homens negros há muito tempo. Esses estereótipos motivaram, inclusive, diversos linchamentos contra homens negros durante o pós-escravidão no contexto norte-americano, pois os homens pretos eram constantemente acusados de cometer estupros contra mulheres brancas. Essas violências foram motivadas justamente pela construção da imagem desses homens enquanto pessoas violentas, monstruosas e sem sensibilidade. A minissérie da Netflix “Olhos Que Condenam” retrata isso de maneira duramente realista.

Diante dessa imagem de monstro, Babu foi excluído pelas mulheres da casa sem direito a nenhum tipo de piedade ou empatia com a solidão. As mesmas mulheres que levantaram debates importantíssimos sobre machismo dentro da casa conseguiram protagonizar episódios dolorosos de discriminação racial. A cada vídeo que eu via de Babu isolado em um canto e, muitas vezes, chorando, um sentimento de angústia se instalava em meu peito. Aflição, sabem? Porque nesses momentos a gente se sente impotente.

A medida que nós, daqui de fora, nos sentíamos impotentes, por ver a violência racial em rede nacional e não poder fazer nada, nos tornamos mais engajados na torcida a favor da vitória de Babu nesta edição do BBB. Nós, que já torcíamos para a vitória do ator, acabamos nos envolvendo com o programa a ponto de fazer mutirões de voto e mentalizar com toda força para que ele pudesse passar, pelo menos, uma semana de paz sem ir para o paredão. Essa última parte está um pouco difícil, já que ele tem o maior histórico de perseguição do BBB, com 40 votos e mais de 8 paredões, mas a potência de Babu pode lhe dar a vitória, porque independente de precisar ou não dos R$ 1,5 milhão, ele se mostrou uma pessoa muito mais verdadeira, de caráter e sensata do que todas as “fadas” juntas.



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